S.O.S. Diversidade

Passada a eleição, seja qual for o resultado, pessoas, partidos, organizações e instituições vão precisar fazer frente a uma questão política absolutamente relevante atualmente no Brasil: o papel do contraditório.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

Educativo, reformador, libertador, vital em qualquer democracia digna do nome, o exercício da discordância anda em baixa. Em vias mesmo de tentativa de extinção, se desenhando como um conceito antiquado, quase à margem da legitimidade.

Há até quem não tenha o menor pudor de manifestar publicamente estranheza pelo fato de existirem pessoas no Brasil - segundo as pesquisas cerca de 5% da população - que não gostam do governo Luiz Inácio da Silva e não se integram à legião de admiradores do presidente.

São tidas como mentalmente deformadas, emocionalmente repulsivas. E, agora que Dilma Rousseff está bem à frente nas pesquisas de intenção de votos, vistas com misericórdia pelos bondosos e tratadas com escárnio pelos ímpios que ficam a se perguntar o que será delas nos próximos anos.

Como se a paz de espírito emanasse do governo e, portanto, a felicidade só existisse para os irmãos de fé.

Individualmente tal pensamento - difundido por toda parte - se resolve na confrontação da realidade: nem todos dependem de governo para viver, pensar e produzir.

Coletivamente o resultado disso é mais preocupante, pois resulta em desequilíbrio ecológico no meio ambiente compartilhado por seres naturalmente plurais. Sem diversidade de opiniões e posições, sem a convivência no contraditório não se exercita a democracia.

Tampouco se faz isso apenas reclamando de que o governo pode tudo, ganha sempre e prepara uma ofensiva para eliminar a oposição da face da terra.

Serve para todos os tipos de governo, mas serve mais para o atual que, se tudo correr como indicam as pesquisas, continuará no poder.

E por que se aplica mais ao governo do PT? Porque ele cansou de demonstrar nestes dois mandatos de Lula que usa de todos os recursos para ganhar disputas. Portanto, não é justo quando se diz que se o governo ganha é por eficácia.

Pode até ser também, mas não só. Ganha principalmente porque não joga na regra, no mano a mano com igualdade (ou quase) de condições e extrapola no abuso da máquina e das infrações à lei.

Muito bem, ocorre que essa é a realidade e com ela a oposição terá de lidar. A menos que faça uma opção definitiva pelo resmungo, pela autoindulgência, pelo adesismo ou pelo ostracismo.

Se quiser manter o estabelecimento funcionando precisará de reformas. Profundas.

Começando por sair da toca e ousar. Parar de querer jogar no certo, com medo de errar. Quem sabe não dá mais certo jogar com vontade de ganhar e fazendo o que acha correto?

Isso só se faz com a clareza de que é preciso ter "lado", posição. Achar que o adversário - principalmente da envergadura do PT - em algum momento dará sombra e água fresca é ilusão à toa.

Coragem é indispensável e sensibilidade para mobilizar a sociedade, nem se fala.

Procurar novos personagens, arejar os partidos, deixar de lado os jargões e chavões do Congresso e da Esplanada dos Ministérios, falar a linguagem de gente normal, tratar as pessoas com franqueza e naturalidade, se aproximar da sociedade.

Antes, porém, é mister uma autocrítica impiedosa, de tirar pedaço e fazer correr sangue.

Tropa. O ex-governador do Amapá Waldez Góes, preso na sexta-feira pela Polícia Federal acusado de corrupção, é um dos candidatos ao Senado amistoso com o qual Lula pretende presentear Dilma Rousseff, se ela for eleita presidente.

Com qual finalidade? Dominar o que falta ser dominado no Poder Legislativo.

Ao centro. São boas as notícias de prisões e cassações de pessoas acostumadas à impunidade. Mas até agora essas punições - excetuando-se Anthony Garotinho (RJ) - só alcançaram autoridades de Estados politicamente periféricos.

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