''Soube da morte do Braz por telefone. Foi um choque para mim''

Wanderley Lemes de Aquino, ex-secretário de Habitação de Jandira

Fausto Macedo, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2011 | 00h00

Preso em uma cela de seis metros quadrados, Wanderley Lemes de Aquino, ex-secretário de Habitação de Jandira, na Grande São Paulo, disse ao Estado que a acusação que pesa contra ele "não passa de uma farsa". A acusação é grave: para a polícia ele é mandante da morte do prefeito da cidade, Braz Paschoalin (PSDB), executado a tiros na manhã de 10 de dezembro. "É mentira", afirma.

A polícia suspeita que Paschoalin foi alvo de uma briga pelo poder e de um crime de mando. O prefeito teria esvaziado atribuições de Aquino na gestão municipal. A polícia acredita que a investigação está muito próxima de uma conclusão. O ex-secretário de Habitação é o suspeito principal.

Aos 46 anos, cinco filhos, ex-policial militar, ex-vereador, Aquino está detido há três semanas por ordem judicial. Divide o cárcere, na cadeia de Carapicuíba, com um guarda civil e com ele reveza o único colchão.

Ele tenta derrubar o decreto de prisão por meio de habeas corpus que seu advogado, Mauro Otávio Nacif, impetrou no Tribunal de Justiça do Estado. Criminalista experiente, com atuação em 800 júris populares, Nacif argumenta no pedido à Corte que Aquino era amigo do prefeito morto - logo, não teria motivos para mandar matar Paschoalin. Aquino fala sobre dois documentos apreendidos em sua residência.

A polícia aponta o sr. como mandante do assassinato. O que o sr. tem a dizer?

Tudo isso não passa de uma farsa, é mentira. Eu não teria motivo para fazer isso. A polícia é que tem que dizer porque eu sou suspeito. Eu era amigo pessoal do prefeito Braz havia mais de 25 anos. A gente ia nas mesmas festas, eu frequentava a casa dele. Nunca tivemos qualquer tipo de entrevero, nenhuma discussão sequer.

Como vocês se conheceram?

Eu o conheci na política. Ele era amigo do meu pai. Na ocasião eu não era filiado. Eu trabalhava de modelador em uma fundição em São Paulo e comecei a militar para o Braz. Soube da morte dele pelo telefone. Eu seguia para Ouro Verde (loteamento em Jandira) por causa de um desmoronamento. Me avisaram que o Braz havia sido baleado. Foi um choque para mim.

O prefeito disse para o sr. que estava sendo ameaçado?

Ele falou para os secretários, falou de ameaças. Mas sempre andava com segurança, usava carro blindado. Uma vez ele disse: "Estou me sentindo ameaçado". Eu nunca perguntei quem o ameaçava. Era coisa pessoal dele.

Um filho seu está preso por roubo. A polícia diz que ele é do PCC e que dois dos acusados pela execução do prefeito integram a mesma facção.

Faz praticamente três anos que eu não vejo meu filho. Ele está preso há 4 anos e 3 meses. Desconheço ligação dele com os executores.

A polícia diz que há indícios contra o senhor.

Isso não existe. Quebrem meu sigilo telefônico, o meu sigilo bancário. Abro mão de tudo.

Paschoalin tirou seu espaço na gestão municipal?

Houve um acordo. A pasta tinha três unidades antigamente, além da habitação cuidava do meio ambiente e da diretoria de planejamento urbano. Ele (Paschoalin) fez o que disse que ia fazer. Fiquei com a habitação, minha especialidade. Não fiquei aborrecido, era um acordo.

Por que o prefeito o colocou na Habitação?

Porque sou empresário da construção civil. Sempre atuei nessa área de aprovações de projetos imobiliários. Tenho bom conhecimento do ramo.

Como o sr. explica os documentos encontrados em sua casa que levam a promotoria a suspeitar de seu enriquecimento ilícito?

O laudo da jazida de esmeraldas foi um amigo meu que deixou em minha posse. Eu ia abrir uma empresa, uma transportadora, e pretendia incluir a jazida no capital social. Era só para isso. Sobre o tal imóvel de R$ 6 milhões é tudo invenção. Eu não ia comprar nada. Estava apenas intermediando a venda de um terreno de 124 mil metros quadrados na divisa de Jandira com Barueri. O proprietário queria R$ 6 milhões pela área, eu ia vender por R$ 12 milhões. A diferença era minha, uma comissão.

Um genro do prefeito o denunciou por ameaças.

Não fiz ameaça a ninguém. Houve uma reunião na prefeitura, três dias depois da morte do Braz, convocada pela prefeita (Anabel Sabatinne, sucessora de Paschoalin) para definir quem ficava na administração. Foi uma discussão de caráter político. Faz parte. Não ameacei ninguém.

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