Chello Fotógrafo/Futura Press
Chello Fotógrafo/Futura Press

SP e Rio têm conflito entre taxistas e motoristas da Uber

Na capital paulista, grupo cercou carros e passageiros na saída de festa da 'Vogue'; no RJ, houve briga em um posto de gasolina

Constança Rezende, Luiz Fernando Toledo e Rafael Italiani, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2016 | 10h14

SÃO PAULO E RIO - Um grupo de taxistas cercou e intimidou motoristas da Uber e passageiros que queriam usar o aplicativo na saída de uma festa da revista Vogue, realizada no Hotel Unique, nos Jardins, zona sul de São Paulo, na noite desta quinta-feira, 28. Eles fizeram um cerco em todos os carros pretos que estavam em frente ao hotel, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, na altura do número 4.700, e hostilizaram os motoristas à noite e durante a madrugada, impedindo os passageiros de utilizar o serviço. Ao menos um fotógrafo ficou ferido e um veículo acabou depredado. No mesmo dia, houve confronto entre taxistas e motoristas da Uber na zona sul do Rio. 

De acordo com a Polícia Militar, o tumulto em São Paulo começou por volta das 22 horas e se estendeu pela madrugada, até por volta das 4h40, quando o grupo se dispersou. Viaturas acompanharam o protesto e um homem foi detido, suspeito de ter  depredado o automóvel, que ficou com pára-brisas quebrado e a parte de trás, amassada. Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP), ele foi liberado em seguida, por não ter sido reconhecido pela vítima. A investigação é feita pelo 15º Distrito Policial (Itaim Bibi). Imagens do local já foram coletadas para tentar identificar o autor da depredação.

Já o fotógrafo Luiz Fernando de Abreu Matheus, de 34 anos, disse que foi perseguido e teve seu notebook quebrado ao tentar  fotografar o momento do ataque ao carro. "Gritaram e correram atrás de mim, e eu caí. Tentaram puxar mochila e o notebook quebrou". Ele contou que foi socorrido por três policiais militares e que irá registrar boletim de ocorrência.

Uma mulher de 29 anos que trabalha próximo ao local presenciou o ataque.  Ela pediu para não ser identificada pela reportagem. "Vi os caras jogando coisas nos carros e um em cima do capô", contou. "A sensação de medo e insegurança só aumentava toda vez que eles corriam, subiam em cima dos carros, jogavam pedras e pasmem: avançaram em direção aos pedestres que se mostravam contra aquele show de terror", disse.

Segundo a jovem, a chegada da polícia não amenizou a tensão. "O clima pesado piorou".  De acordo com ela, um dos taxistas disse que "se a Tropa de Choque chegasse, ia haver confronto".  "Eles não se preocupavam com as pessoas que estavam lá trabalhando, se divertindo. Corriam para um lado e para o outro, parando todos os carros pretos que passavam, xingando e hostilizando".

Ela filmou parte da ação dos taxistas e postou o vídeo em uma rede social. "Cheguei em casa bem, mas assustada".  A jovem disse ao Estado que precisou ir embora de táxi por causa do tumulto. "Não tinha outra opção".

Briga. No Rio, aconteceu uma briga em um posto de gasolina, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Dois motoristas da Uber que estavam no local teriam sido abordados por cerca de 20 taxistas. Na confusão, carros foram depredados. Motoristas dos dois lados apresentaram versões diferentes sobre quem teria começado a confusão, que foi parar na delegacia.

Segundo os condutores do aplicativo, taxistas teriam tentado intimidá-los. Já estes disseram que os motoristas da Uber os teriam agredido. Policiais tiveram de ser chamados ao local para conter a confusão.

O presidente do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores nas Empresas de Táxi (Simtetaxis), Antonio Raimundo Matias, o Ceará, disse que a categoria continuará com os protestos. Quando o sindicato tomou conhecimento da festa, pediu que a Prefeitura a fiscalizasse. "Ficamos sabendo que teria essa festa e que a Uber estava fazendo promoções para os clientes. Mais uma vez a Prefeitura não tomou atitudes e foi conivente", disse. "O prefeito Fernando Haddad é o comandante deste navio que é São Paulo e está saindo fora, deixando o navio naufragar. Vamos continuar mobilizados para manter nosso ganha pão", afirmou.

A Uber, em nota, repudiou a ação dos taxistas.  "A Uber repudia qualquer tipo de violência, e lamenta profundamente a selvageria que ocorreu nesta noite de uma festa tão bonita".

Já a assessoria de imprensa da revista informou apenas que a Vogue não tem parceria com a Uber ou taxis e que a forma de locomoção "é de livre arbítrio de cada convidado".

A Prefeitura de São Paulo, em nota, informou que "condena violência e lamenta que os atos tenham ocorrido no momento em que o debate para a regulação do transporte publico individual está aberto na cidade". Disse ainda que a Secretaria Municipal de Transportes (SMT), por meio do Departamento de Transportes Públicos (DTP), fiscaliza o transporte clandestino e ilegal em toda a capital. "Entre agosto de 2014 e 27 de janeiro de 2016, 160 veículos que usavam o aplicativo Uber foram apreendidos".

Consulta pública.  Horas antes dos confrontos, o prefeito Fernando Haddad (PT) havia afirmado que os taxistas vão "desaparecer pela concorrência predatória" caso não aceitem a regulação do transporte individual. E alertou aos taxistas: "Não temos condições de fiscalizar uma nuvem, que é do que se trata hoje. Quando o transporte clandestino era coletivo, havia os pontos de parada (para fiscalizar)", disse o prefeito, que também classificou como "reducionismo" críticas sobre a Prefeitura ser "contra ou a favor dos táxis". "O que está em jogo não é a existência do táxi, mas do taxista."

A consulta pública do decreto que regulamenta a Uber em São Paulo recebeu, ao todo, 5.865 contribuições entre dezembro e quarta-feira, 27. De acordo com dados apresentados pelo presidente da SP Negócios, Rodrigo Pirajá, 78% das contribuições opinativas foram favoráveis a regular o aplicativo.

O decreto determina que os motoristas só podem pegar passageiros por meio de aplicativo - e não na rua. Os condutores comprariam créditos por quilômetro rodado, com validade de até dois meses, e a Prefeitura estabelece um teto que pode ser cobrado pelo serviço. Também se prevê estímulos para quem trafegar fora do horário de rush, na periferia, tiver veículo adaptado para pessoas com deficiência ou faça corridas divididas. Nesse último caso, o passageiro deve aceitar dividir a viagem com outras pessoas.

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