SP fecha albergues e cria Centro-Dia

Prefeitura foca atendimento a morador de rua em ações diurnas; ONG acusa política para o centro de ''higienista''

Diego Zanchetta e Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

30 de abril de 2009 | 00h00

O atendimento ao morador de rua mudou em São Paulo. Albergues tradicionais do centro, por onde transitavam todos os dias parte dos 10,7 mil desabrigados da capital, foram fechados. O acolhimento ocorrerá agora principalmente em três "centros de convivência" diurnos - chamados de Centro-Dia. Esses locais - 1 em Santa Cecília e 2 no Parque D.Pedro II - são a maior aposta da secretária da Assistência Social e vice-prefeita, Alda Marco Antonio. "Estão ocorrendo mudanças e elas vão continuar. Se em seis meses esse novo modelo não tiver resultado, pensaremos em outro", afirma a secretária, criticada por entidades que classificam sua política de "higienista" para a região central.As mudanças nesses primeiros quatro meses já causam polêmica entre entidades envolvidas há duas décadas na assistência à população de rua. A secretária admitiu, por exemplo, que não gosta de ver moradores de rua "comendo em chãos duros". Ela disse que as entidades que distribuem sopas e alimentos em diversos pontos do centro serão convidadas a fazer o trabalho dentro dos centros de convivência. "O primeiro será inaugurado em Santa Cecília, logo após o prefeito voltar de viagem da Ásia (dia 21). Dentro dessas tendas, quero que a comida seja servida com os moradores sentados à mesa, vendo televisão e conversando com nossos educadores, e não na calçada de uma rua escura."Nos centros, os moradores vão poder passar o dia recebendo atendimento psicológico, médico e social. "Queremos oferecer mais do que o banho do albergue. A ideia é que o morador (de rua) que se recusava a ir para o abrigo seja atraído para o centro", disse Alda. Esses locais, porém, não terão dormitório. Segundo o governo, os moradores terão a opção de ser removidos para outros albergues, de bairros como Vila Alpina e São Miguel Paulista, na zona leste, no fim do dia. "Se ele (morador) quiser encostar e dormir no centro de convivência, não terá problema", afirma a secretária.Alda também discorda do atendimento das Kombis que transportavam os moradores de rua do centro para albergues. O serviço era realizado por 40 carros, por meio de um convênio com a organização não-governamental Santa Lúcia que não foi renovado. "Os moradores passaram a ligar para os responsáveis pelas Kombis a qualquer hora. Era comum o morador de rua chamá-los, em vez de andar cinco quarteirões até o albergue. Então, tenho dúvidas sobre a eficácia do atendimento que era feito por esses veículos."Para entidades, a secretária quer afastar os desabrigados do centro. Em março, foi fechado o principal abrigo da região central, o São Francisco (no Glicério), com capacidade para 720 pessoas. Antes, o Centro de Acolhida Jacareí, na Bela Vista, já havia sido fechado, em julho. E as entidades também reclamam do atraso nos repasses do governo. "Fechamos albergues que não tinham condições sanitárias, mas fizemos remanejamento de vagas para outras unidades. Não houve extinção de lugares", argumenta. "O aumento dos moradores de rua pode ser um reflexo direto da crise", acrescenta. A Secretaria de Assistência Social informa também que quatro novos convênios para o atendimento da população de rua do centro devem ser ratificados até o fim de maio.FORÇA POLÍTICAAlda foi o elo da gestão Kassab para a aliança com o PMDB, principal partido de sustentação à reeleição do prefeito. A parte paulista da sigla, capitaneada pelo ex-governador Orestes Quércia, também já adiantou que apoiará José Serra (PSDB) na eleição presidencial. Com força política, a secretária ganhou autonomia para implementar uma nova gestão na Assistência Social. NÚMEROS 10,7mil desabrigados estão nas ruas da capital1 centro de convivência vai funcionar em Santa Cecília2 centros farão atendimento a desabrigados no Parque D. Pedro II720 lugares era a capacidade do abrigo São Francisco, no Glicério,fechado em março

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