''SP insiste em isolar as franjas da cidade''

A morte da adolescente Ana Cristina Macedo, provocada, aparentemente, por tiros disparados por um guarda municipal, não traz nada de novo. O nome da vítima, assim como o bairro onde tudo aconteceu, poderiam ser facilmente substituídos pelo nome de outras inúmeras vítimas de episódios similares.

PAULA MIRAGLIA, ANTROPÓLOGA, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2009 | 00h00

Isso porque, para além de um evento pontual, o acontecido compõe uma narrativa mais extensa sobre a cidade, onde os termos vulnerabilidade, vitimização desigual, violação de direitos e doses maciças de violência são constantemente conjugados.

A resposta da comunidade com o incêndio de ônibus e ataques à polícia tampouco tem novidades. Mas, se por um lado alimentam o ciclo imposto pela violência, por outro, rompem de maneira bastante eficaz a invisibilidade à qual estão relegadas essas regiões da cidade.

Basta lembrar que quase 50 mil pessoas são mortas a cada ano no País sem que isso tenha atenção proporcional da sociedade (o contraste das infinitas manchetes a respeito das mortes causadas pela gripe suína é exemplar nesse sentido).

Queimando ônibus, a comunidade de Heliópolis, assim como fez a de Paraisópolis também neste ano, conseguiu chamar a atenção e apontar a gravidade de (mais) um crime acontecido no bairro.

Mas diante da morte de uma inocente, quais são as escolhas da polícia? Solucionar o crime parece ser a mais óbvia. Adotar ações que afirmem para uma comunidade vulnerável, num momento de crise, que o braço policial do Estado é capaz de protegê-la também parece fazer sentido.

O que não é admissível é a desqualificação da vítima ou das reações da comunidade. Essas são estratégias incompatíveis quando a intenção é fazer justiça.

São Paulo insiste na estratégia de isolar as franjas da cidade. Faz isso por meio da baixa qualidade ou, em alguns casos, inexistência dos serviços públicos e confinando a violência letal nessas regiões. A manutenção das periferias como um reduto da desigualdade é uma realidade com a qual a cidade parece ter se acomodado. No caso da violência, contudo, a estratégia não está funcionando e há provas constantes e contundentes nesse sentido.

Seria um grande equívoco assumir que os casos de Paraisópolis ou Heliópolis dizem respeito a essas duas regiões apenas. Eles representam dilemas de toda a cidade. No momento em que a jovem Ana Cristina foi morta, os direitos de todos nós foram violados.

O isolamento das periferias talvez nos impeça de ver isso de maneira mais clara. Mas a insegurança e o sentimento de insegurança ao qual estamos todos submetidos nos lembram (ou pelo menos deveriam) de que ou a cidade toda está segura - e é, portanto, uma única cidade - ou ninguém vai estar.

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