SP lidera ranking das federais mais violentas

Minas tem mais mortes e acidentes, mas, proporcionalmente, São Paulo registra índices maiores de vítimas por quilômetros de rodovias

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

29 de dezembro de 2007 | 00h00

As rodovias federais de São Paulo são as mais violentas do Brasil. Mesmo registrando uma menor quantidade de acidentes e de mortes em números absolutos, a realidade das estradas paulistas aparece quando se considera a proporção de mortes e de acidentes por quilômetros de estradas federais.No ano passado, a liderança de São Paulo no ranking de violência nas estradas já havia sido incontestável (veja tabela ao lado). O quadro voltou a se repetir. São Paulo registrou o índice de 8,73 acidentes e 0,33 morte por quilômetro de estrada. Foram 9.268 acidentes e 348 mortos em 1.061 quilômetros, o que significa, proporcionalmente, quase três vezes mais do que os índices de Minas, líder em números absolutos de acidentes (17.900), mas com a maior malha rodoviária federal do Brasil (5.973,5 km).No feriado passado, aconteceram 1.870 acidentes e 196 mortes em cinco dias, o que transformou o período no Natal mais violento dos últimos 20 anos. E São Paulo voltou a liderar as estatísticas. Houve 0,22 acidente por quilômetro, enquanto Minas, primeiro lugar em números absolutos (460 acidentes), registrou índice de 0,07.O inspetor Alvarez Simões, coordenador de Controle Operacional da Polícia Rodoviária Federal (PRF), aponta dois fatores para a liderança paulista no ranking. O primeiro deles é o elevado fluxo de veículos nos grandes centros urbanos. "Ainda não podemos medir esse fluxo. Mas a grande quantidade de veículos faz com que essas estradas sejam as mais violentas."Já o segundo motivo apontado por Simões desfaz o senso comum que atribui à má conservação das estradas o elevado número de acidentes. Ele afirma que a sensação de segurança proporcionada pelas estradas em condições relativamente boas acaba aumentando os riscos. "Quando entra em uma estrada ruim, o motorista parece redobrar a atenção. As boas estradas são traiçoeiras."Simões apresenta dados de um estudo coordenado pela PRF, entre janeiro e setembro, para reforçar o argumento: 54,8% dos acidentes ocorridos nas rodovias federais tiveram como causa a imprudência dos motoristas - e a maioria desses casos ocorreu durante o dia, com o tempo bom e em retas. Já os defeitos na pista, como buracos e rachaduras, foram responsáveis por 1,94% das ocorrências. "Podemos ter as melhores rodovias do mundo. A situação só vai mudar quando mudarmos o comportamento dos motoristas."A análise do inspetor da PRF é compartilhada por especialistas de trânsito ouvidos pelo Estado. Eles afirmam que a piora nos índices de acidentes e mortes em colisões nas estradas está diretamente ligada à sensação de impunidade e à falta de fiscalização que premiam a imperícia no volante. "Existe uma enorme tolerância com os infratores. Isso incentiva a transgressão", diz o consultor de engenharia de tráfego Horácio Figueira. Ele pesquisou em março do ano passado o comportamento dos motoristas nas estradas de São Paulo. Constatou que 76% dos veículos cometeram infrações - e cada um deles, em média, 41,6 infrações por hora. "Mais infrações, mais risco de acidentes."SUBNOTIFICAÇÃOSe os índices de violência nas estradas federais já são assustadores, eles poderiam ser 100% maiores se as estatísticas fossem capazes de abranger todos os acidentes e mortes que efetivamente acontecem no território nacional. Segundo o pesquisador Rodrigo Lang, do Centro de Estudos em Logística do Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração de Empresas da Universidade Federal do Rio (Coppead-UFRJ), são duas as causas principais da subnotificação.As informações atingem só os 57,3 mil quilômetros de estradas policiadas - o que representa 60% do total. Ficam de fora 38,5 mil quilômetros. Além disso, as notificações de mortes em estradas são feitas somente quando a vítima morre no local ou logo após chegar ao hospital. Na Europa, o acompanhamento do acidentado continua por pelo menos sete dias. Em caso de morte tardia, ainda se registra o caso como uma decorrência do acidente.

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