SP omite dados sobre seqüestros relâmpagos

Crime, principal causa de estresse pós-traumático em vítimas, é registrado como roubo qualificado

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

01 de fevereiro de 2008 | 00h00

Apesar de ser um dos crimes mais traumáticos para as vítimas e de se tornar cada vez mais violento, o seqüestro relâmpago não aparece nos dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Nas estatísticas, o crime é computado como roubo qualificado, o que impede que se tenha a noção real do problema, principal causa de estresse pós-traumático em vítimas de violência, ao lado dos seqüestros com cativeiro. "Talvez os roubos sejam mais freqüentes, mas causam muito menos danos nas vítimas", diz o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, autor de Transtorno de Estresse Pós-Traumático em Vítimas de Seqüestro (Editora Summus), publicado em dezembro. "Quatro horas sob a mira de um revólver pode causar o mesmo trauma do que ser mantido em cativeiro por 40 dias", diz, após estudos com mais de 300 vítimas de seqüestros relâmpago que procuraram o Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica, coordenado por ele no Hospital das Clínicas, entre 2002 e 2005. Ao contrário de outros tipos de violência, que afetam psicologicamente quase duas vezes mais mulheres, o seqüestro relâmpago atinge os homens na mesma proporção, segundo Santos. O advogado e jornalista Felipe Milanez, de 29 anos, parou o carro em uma rua para ligar para o amigo que o esperava. Um homem encostou na janela, com uma arma mirada em seu rosto. Outro colocou-se na frente do carro. Martinez foi obrigado a escrever num papel as senhas dos cartões de débito e de crédito e a entregá-lo para um terceiro, que estava de moto. Enquanto ele retirava o dinheiro nos caixas, Martinez ficou no carro sob a mira de dois revólveres por uma hora. Nervoso, ele errou as senhas e passou a ser ameaçado de morte. "Você está brincando com a gente?", gritavam. Sacados R$ 1 mil, os bandidos mandaram que Martinez ficasse no carro e se foram com as chaves. "Eu não sabia o que estava acontecendo, se iam voltar, se havia mais deles nas redondezas. Fugi assustado, com as pernas tremendo", conta. Desde então, as cenas não lhe saem da cabeça. "Não consigo mais ficar tranqüilo." De acordo com o psiquiatra Marcelo Feijó, coordenador do Programa de Atendimento de Vítimas de Violência e Estresse da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), entre 15% e 20% das pessoas que sofrem violência com ameaça à vida adoecem. Entre as vítimas de seqüestro relâmpago, a prevalência pode ser maior."Quanto maior o risco à vida, mais probabilidade de desenvolver estresse", diz Feijó. Segundo ele, os seqüestros relâmpago têm se tornado mais violentos. "Percebemos claramente o aumento de casos de violência física e sexual em seqüestros. Os relatos são cada vez mais horripilantes." FRASESEduardo dos SantosPsiquiatra"Talvez os roubos sejam mais freqüentes (que os seqüestros relâmpagos), mas causam muito menos danos nas vítimas"Felipe MilanezVítima de seqüestro"Eu não sabia o que estava acontecendo, se (os bandidos) iam voltar, se havia mais deles nas redondezas. Fugi assustado, com as pernas tremendo"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.