SP toma o lugar do Paraguai como paraíso das muambas

Polo distribuidor de contrabando e produtos falsificados, região central atrai camelôs e lojistas de todo o País

Bruno Paes Manso e Eduardo Nunomura, O Estadao de S.Paulo

07 Fevereiro 2009 | 00h00

Nas madrugadas de segunda e terça-feira, enquanto a maior parte do Brasil dorme, as compras fervem no centro de São Paulo. Às três da manhã, já há filas de ônibus na Rua São Caetano, no Brás, à espera de vagas. As excursões chegam de diversos Estados, cheias de lojistas e camelôs que gastam em média R$ 2 mil para abastecer seus estoques. No fim da tarde, depois de um giro completo pelos shoppings e lojas populares, voltam carregados de sacolas. Roupas de R$ 10 a peça, tênis piratas a R$ 35 que fazem mal ao joelho, eletroeletrônicos mais baratos do que os vendidos em Ciudad del Este, bolsas com falsificações de boa qualidade que custam R$ 300 e até games nos quais Ronaldinho disputa o Campeonato Brasileiro como atacante do Corinthians. Os consumidores das excursões movimentam R$ 1 bilhão em compras mensalmente e transformam o centro de São Paulo no principal polo brasileiro distribuidor de muambas - piratarias e contrabando, papel anteriormente ocupado pelo Paraguai. Só no estacionamento da feira da madrugada, no Brás, chegam em média 9 mil ônibus por mês. No Pátio 25, no centro, são mais 600. "Gastam o mesmo que um europeu num hotel de luxo no Nordeste", compara o presidente da São Paulo Turismo, Caio Luiz de Carvalho. O Sindicato dos Auditores da Receita Federal estima que o País perca R$ 30 bilhões em arrecadação com esse tipo de ilegalidade. Com a crise econômica e a vista grossa da polícia, São Paulo deve testemunhar uma nova enxurrada de produtos piratas. "Haverá mais desempregado vendendo e a exportação dos grandes fornecedores buscará os centros mais tolerantes", prevê Márcio Gonçalves, ex-secretário executivo do Conselho Nacional de Combate à Pirataria. A pujança do mercado de muambas paulistano se consolidou por estar livre dos rigores da Receita Federal hoje presentes na Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu, e pela ousadia dos contrabandistas, que passaram a trazer produtos para a capital. Dalva de Oliveira Fernandes organizou excursões de Serra, no Espírito Santo, para Foz por 13 anos. Cansou de ver seus clientes perderem tudo nas blitze. Em 2004, trocou o Paraguai por São Paulo. "Saí do sufoco, é muito mais perto e não tenho de correr de ninguém", explica. Gilmar Duarte, de Araçatuba, também costumava ir até Foz e Puerto Suárez, na Bolívia. Agora vem três vezes por semana à capital. "Aqui tem até nota fiscal."

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