Subutilizada, ponte ''estrangula'' ruas do Morumbi

Sem alças nem ligação com Imigrantes, estaiada comporta 4 mil carros por hora, mas recebe 2,5 mil

Marici Capitelli, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2008 | 00h00

A Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira, um novo cartão-postal da cidade de São Paulo ao custo de R$ 260 milhões, se encontra subutilizada. Embora a capacidade de tráfego seja de 4 mil carros por hora em cada sentido da ponte, passam hoje 2,8 mil veículos por hora nos horários de pico no sentido Marginal do Pinheiros e 2,5 mil no lado oposto, para a Avenida Jornalista Roberto Marinho, na zona sul. A Prefeitura inaugurou a estaiada em 10 de maio deste ano.Mesmo com o volume de tráfego ainda abaixo do estimado, a ponte é alvo de reclamação de moradores da região do Morumbi, que se sentem prejudicados pela obra. Associações de bairros se mobilizam para pleitear a construção de alças de acesso na ponte estaiada. O argumento das comunidades é que, sem acessos suficientes, a ponte "estrangulou" o trânsito dentro do Morumbi.A Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), responsável pela obra, informou que o projeto ainda não está totalmente concluído. De acordo com a empresa, quando isso ocorrer, os problemas serão solucionados, mas afirmou que os congestionamentos são de competência da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). A empresa, por sua vez, nega a responsabilidade sobre o trânsito na ponte. A Assessoria de Imprensa da CET informou que cabe apenas à Emurb responder às questões da reportagem, uma vez que faz somente o monitoramento do trânsito na região.A estaiada é a maior obra da gestão de Gilberto Kassab (DEM), mas começou a ser erguida no governo de Marta Suplicy (PT). A construção da ponte, sem o restante da obra - acessos não concluídos -, é a principal crítica de Sérgio Ejzenberg, consultor de trânsito e pesquisador do Departamento de Trânsito da Escola Politécnica da USP. "Dá dó se gastar tanto dinheiro em uma obra para se ter uso completo tantos anos após a inauguração. Com o valor que foi gasto, daria para fazer 1,5 quilômetro de metrô", afirmou.O arquiteto e urbanista Alberto Botti, conselheiro da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea), classifica a ponte como "uma das obras de arte que os prefeitos tanto gostam, assim como túneis e viadutos, mas que não resolvem os problemas de trânsito". Para ele, apesar de bonita, o efeito prático da ponte é muito pequeno. "São resultados pontuais." Quanto à reclamação dos moradores de que está causando impacto no Morumbi, o arquiteto compara o trânsito com água. "Se você tem um entupimento em um ponto A e o alarga, ela (água) flui, mas vai parar no ponto B."A coordenadora da Divisão de Trânsito do Instituto de Engenharia, arquiteta e urbanista Maria da Penha Pereira Nobre, considera a ponte uma obra importante para a cidade. Critica, no entanto, a falta de acessos e defende que as ligações previstas no projeto sejam feitas. "Por exemplo, quem quer pegar a Avenida Morumbi não tem uma saída direta."O autor do projeto da ponte, o arquiteto João Valente Filho, defende a sua criação. Ele não considera a ponte subutilizada. "Está com 60% de utilização. É um número razoável." Também garante que a estaiada não impactou o trânsito na região do Morumbi. "Esse é um impacto antigo." Para o arquiteto, outros fatores contribuíram para o trânsito na região, como o aumento da frota. "Nós não criamos só uma ponte, mas também o conceito de cidadania."SOLUÇÃOO engenheiro da Emurb Norberto Duran afirma que, quando mais uma etapa da obra estiver concluída, o volume de carros vai aumentar. Ele se refere à ligação expressa da Avenida Jornalista Roberto Marinho com a Rodovia dos Imigrantes. Essa nova via, cujo projeto promete desafogar o trânsito na Avenida dos Bandeirantes, está em processo de licitação e só deverá estar pronta no início de 2011. O engenheiro afirma também que está prevista uma nova alça de acesso que ligará a Avenida Jornalista Roberto Marinho no sentido Aeroporto de Congonhas ao Real Parque. "Mas não há data para isso, porque depende de desapropriações", disse Duran. Outra obra prevista é uma nova faixa de tráfego perto da Ponte do Morumbi. "Só que depende de remanejamento de linha de transmissão da Eletropaulo e os custos são significativos. Não temos previsão", explica o engenheiro.

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