Suíte tabagística

Na cela 3 do DOPS, em Belo Horizonte, onde aos 21 anos me trancafiaram por um mês, achei que a meu perfil de jovem intelectual insubmisso faltava um arremate visual. Podia não ter o cachecol e o olho torto do Sartre, porém o mais estava à mão. Pedi aos amigos que me arranjassem um cachimbo.

Humberto Werneck - O Estado de S. Paulo,

10 Fevereiro 2013 | 11h26

Fui atendido pelo José Márcio Penido, e, durante horas, encostado à grade (na cela em frente estava o sociólogo Bolívar - então oxítono: Bolivar - Lamounier), fiz o que pude para manter acesa, já não digo a flama revolucionária, mas a brasa do cachimbo. A outra, com o tempo, também arrefeceu, tanto quanto meu pique para desbravar a Introdução Sistemática ao Estudo da Sociologia, de Harry M. Johnson, que o vizinho de cana me recomendara. Bem mais adiante, tive uma fase de charuto, fumegante adereço que definitivamente não combinava com o meu temperamento bem pouco contemplativo. Repare: a não ser em filme de gângster, na permanente iminência da chegada dos pneus cantantes da lei, você não vê ninguém pitando nervosamente um puro, talhado, ao contrário, para ser saboreado em sossego, de preferência ao pé de uma lareira e com um cálice de conhaque na outra mão.

Toda essa conversa para contar que, ressalvadas a pretensão do cachimbo e a inadequação do charuto, foi ao cigarro que me mantive fiel em meus 20 anos de fumante. Bom fumante, se é que nesse ramo se pode ser bom. Verdade que jamais consegui fazer anéis de fumaça, por meio daquela operação que exige enrolar a língua para transformá-la num tubinho. Em compensação, certa vez joguei longe o cigarro já fumado, com o tradicional peteleco em que se juntam as pontas do polegar e do dedo médio - e ele, depois de ricochetear no muro, parou de pé na calçada. Não peço a você que acredite nesse feito sem testemunhas. Ninguém acredita.

No mais, como disse, era um bom fumante. E convenientemente equipado. Tão logo pude, comprei um isqueiro Ibelo Monopol, que, inativo, ainda conservo, junto com um Ronson e um Zippo, como relíquia de tempos de falta de juízo a todo pano. Se você também vem da Idade Média, talvez se lembre de um isqueirinho prateado alemão que trazia gravado, numa das faces, um mapa da América Latina. Em dia de festa, tão indispensável quanto engraxar os sapatos era limpar o Monopol, verificar se ainda havia pedra e se o pavio estava em ordem, e então abastecê-lo com isso que metade do Brasil chama de fluído.

Ainda na adolescência, renunciei por um tempo ao isqueiro, na esperança de causar mais sensação macaqueando os cafajestes que no cinema acendiam o fósforo na sola do sapato. Removia a lixa da caixinha e colava naquela curva interna do salto que não toca o chão. Até o dia em que passei vexame diante da menina por não conseguir acender o palito na sola molhada do Vulcabrás.

Com isqueiro ou fósforo, cumpria o ritual de bater a ponta do Luís XV sem filtro no tampo do relógio ou na unha do polegar, para compactar o fumo antes de acender. Achava fina a história do camarada que passou a fumar de piteira depois que o médico mandou afastar-se do cigarro, e mais ainda esta gracinha do humorista Leon Eliachar: "O cigarro não provoca o câncer. O câncer, sim, é que vive provocando o cigarro." Por pouco não me peguei declamando um decassílabo de Bahia de Vasconcelos, parnasiano retardatário de Belo Horizonte: "Eu sempre fumarei, como hei fumado!". Meu amigo Jaime Prado Gouvêa, ficcionista dos melhores, chegado ao mundo cinco dias antes de mim, tampouco se permitia a subliteratura de Bahia de Vasconcelos - mas na prática endossou o conteúdo daquele verso, visto que jamais renunciou a seu Hollywood. Um pouco como o Chico Buarque, para quem seguir fumando, em tempos de antitabagismo cada vez mais agressivo, foi uma decisão talvez mais dura do que desistir de seus oito cigarros diários. "O velho tabaco", diz o Jaime, "é a única coisa que me salva da virtude total."

Epa. Tinha prometido encerrar o assunto neste domingo. Não vai dar. Fica uma guimba, uma bituca para a próxima semana. Está vendo como não é fácil largar certos vícios?

 

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