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Summit Mobilidade: Especialistas defendem análise de dados e foco nas pessoas

Pandemia pode mudar patamar das discussões sobre mobilidade, mas há desafios orçamentários para promover mudanças no transporte

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2021 | 15h37

Recursos tecnológicos como o mapeamento das cidades e a conectividade entre veículos podem ser aliados para a melhoria na mobilidade urbana. Na pandemia, reflexões sobre novos modelos de deslocamento ganham impulso, ao mesmo tempo em que a crise sanitária e econômica impõe restrições para alavancar projetos. 

Essas foram algumas das reflexões feitas por especialistas convidados para debates no último dia do Summit Mobilidade Urbana 2021, que começou na segunda-feira, 17. Nesta sexta, 21, houve ainda o anúncio dos vencedores do Prêmio Vozes da Mobilidade. 

O evento começou com uma palestra de Carlos Ratti, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e diretor do Senseable City Lab. Por meio de gráficos, o especialista fez reflexões sobre o que pode mudar na configuração dos escritórios e na mobilidade da população após a pandemia da covid-19.

Uma análise de dados sobre os deslocamentos no MIT ajuda a pensar não só na funcionalidade das estruturas físicas como no comportamento das pessoas - e, consequentemente, na forma como se movimentam no espaço. “Podemos trabalhar assim para sempre?” - é a pergunta que muitos se fazem sobre o modelo remoto. 

As investigações no MIT, ainda não publicadas em revista científica, indicam que a pandemia leva a um declínio de novos vínculos. “Nossas relações sociais agora são menos fortes e mais vulneráveis”, diz. Os dados evidenciam, segundo ele, a importância do escritório físico para o estabelecimento de conexões. “São locais físicos onde criamos vínculos e muito daquilo não pode acontecer no espaço digital.”

Mobilidade e tecnologia

No primeiro painel do Summit Mobilidade, especialistas apresentaram reflexões sobre como unir tecnologia e mobilidade e construir cidades inteligentes. Diretor da área de parcerias do Google na América Latina, Newton Neto lembrou que há um esforço de melhorar a qualidade dos mapas online, trazendo informações ainda mais detalhadas, até mesmo de calçadas e faixas de pedestres, para estimular e facilitar a mobilidade a pé. 

Essas soluções tecnológicas poderiam ajudar também na inserção de carros autônomos e drones em países da América Latina, onde esses recursos são menos difundidos. Paulo Manzano, diretor de Marketing da Jaguar Land Rover Brasil, lembrou que o veículo autônomo usa uma série de elementos tecnológicos para se orientar de forma segura. Tudo isso envolve a leitura do contexto, facilitada pelas tecnologias. 

Segundo ele, a popularização do carro 100% autônomo no Brasil ainda enfrenta desafios não só tecnológicos. Falta legislação que regule o tema e há debates éticos em relação ao uso de dados e às "escolhas" que carros totalmente autônomos teriam de fazer no trânsito. “Cidades não são uniformes em termos de sinalização, o relevo é complexo. Há muitos desafios antes de pensar em trazer para a escala comercial”, afirma Manzano. 

Para a arquiteta e urbanista Renata Cavion, a construção de cidades inteligentes e soluções de mobilidade deve ter o foco na qualidade de vida das pessoas e suas demandas. Nesse sentido, é importante, segundo a especialista, ouvir a população. “Ela é o primeiro player desse jogo. Experiências internacionais mostram que iniciar pela tecnologia é um caminho equivocado”, disse Renata, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). 

Stella Hiroki, doutora e pesquisadora sobre Cidades Inteligentes, também lembrou que a criação de smart cities tem a ver com “colocar os cidadãos como protagonistas” de suas cidades. Nesse sentido, municípios podem e devem olhar para os dados de mobilidade disponíveis, coletados por empresas de tecnologia, em busca de soluções que melhorem a vida da população. 

A pesquisadora destacou o exemplo de Joinville (SC), cidade que fez simulações com os dados do Waze para solucionar um problema de trânsito. A conclusão obtida foi simples: a criação de uma rotatória seria capaz de modificar a mobilidade no município. Para que as mudanças não sejam transitórias, Renata destacou a importância de que os planejamentos para a mobilidade não sejam interrompidos com a troca das gestões municipais, como ocorre com frequência no Brasil. 

Veículos elétricos e tendências de compartilhamento

No segundo painel do Summit, Paulo André Domingos, superintendente de produtos e canais digitais do Itaú Unibanco, e Paulo Manzano, diretor de Marketing da Jaguar Land Rover Brasil, discutiram as tendências para o uso e compartilhamento de carros elétricos. A Jaguar tem um carro 100% elétrico, o Jaguar I-PACE, e o Itaú vai lançar um serviço de compartilhamento desse tipo de veículo ainda este ano, o vec Itaú. 

Para os especialistas, o setor de carros elétricos está em expansão e o crescimento da modalidade, na esteira da busca de soluções sustentáveis para os deslocamentos, é “exponencial”. Todos os carros da Jaguar, por exemplo, serão elétricos a partir de 2025. “É um caminho sem volta”, diz Manzano. Para ele, além da vantagem de redução de poluentes, o carro elétrico também otimiza o tempo de abastecimento - uma vez que é possível carregá-lo em casa.

Ainda há, porém, inseguranças e dúvidas dos usuários em relação à autonomia dos carros elétricos (quantos quilômetros o veículo pode rodar com a bateria carregada) - algo que, segundo os especialistas, vem diminuindo. “O interesse  aumenta e as pessoas vão perdendo um pouco a restrição inicial, estão abertas a conhecer, descobrir e a ter um carro elétrico”, diz Manzano.

Segundo Domingos, o vec Itaú pode levar a experiência a mais pessoas e ajudar a popularizar esse tipo de veículo. “Havia uma curiosidade sobre como é dirigir um carro desses.” Os usuários do aplicativo poderão pegar o carro em uma estação e desbloqueá-lo pelo próprio celular. Depois, o devolvem em outra estação. O preço por minuto ainda não foi definido, mas deve ficar entre o que é cobrado em um carro de aplicativo e o valor de táxis. 

O serviço, que deve incluir como uma das opções o I-PACE, já está sendo testado entre colaboradores do Itaú. A previsão é de que o aplicativo comece a operar no segundo semestre - ainda não está definida a cidade por onde iniciará. 

Mobilidade e políticas públicas 

O Summit Mobilidade trouxe ainda a análise das políticas públicas de mobilidade pela repórter e colunista de Economia do Estadão Adriana Fernandes e pelo editor da Coluna do Estadão, Alberto Bombig. Segundo eles, o espaço político para essas discussões, estreito no passado, vem se ampliando, mas há ainda uma série de entraves para as soluções na área, como a questão do financiamento.  

“A mobilidade entrou na agenda, abriu vários caminhos de discussão. Não é apenas mais quanto custa a passagem ou até onde o metrô vai chegar. Entrou uma nova visão de também privilegiar a bicicleta e outros modais”, diz Bombig. Ele destaca, nessas discussões, o papel das câmaras municipais, onde ocorrem debates importantes como a regulamentação de aplicativos de compartilhamento de carros. 

Para Adriana, a retomada econômica no pós-pandemia deve se basear no paradigma da sustentabilidade ambiental e social, o que passa por garantir uma mobilidade mais justa. A pandemia, segundo Bombig, elevou a discussão sobre a mobilidade para outro patamar: o da qualidade do transporte, relativa, por exemplo, à limpeza e lotação. 

Nesse sentido, com a queda da arrecadação, o que se vê é um retrocesso, como veículos lotados e cortes de ônibus. Para Adriana, a desorganização orçamentária do governo dificulta ações nesse sentido. “E é essencial a partir de agora buscar conexão com as fontes de financiamento multilaterais.” Segundo ela, discussões sobre a reforma tributária também passam ao largo do incentivo à sustentabilidade.

Prêmio Vozes da Mobilidade

O Summit Mobilidade Urbana 2021 foi encerrado nesta sexta-feira, 21, com a divulgação dos vencedores do Prêmio Vozes da Mobilidade, que recebeu a inscrição de cases em cinco categorias: Inclusão e oportunidades no mercado de trabalho; Solidariedade na pandemia; Novas tecnologias de mobilidade; Diversidade é meu lema; e Mobilidade consciente. 

Veja abaixo os vencedores em cada uma das categorias:

Inclusão e oportunidades no mercado de trabalho

  • 1º lugar: Mobye Mobilidade Elétrica
  • 2º lugar: Coletivo Feira do Artesão

Solidariedade na pandemia

  • 1º lugar: Drive Tour Caruaru
  • 2º lugar: Superparking - Juntos somos mais fortes

Novas tecnologias de mobilidade

  • 1º lugar: Whatscar
  • 2º lugar: Ecomilhas

Diversidade é meu lema

  • 1º lugar: Volvo Lovers
  • 2º lugar: Mais diversidade

Mobilidade consciente

  • 1º lugar: Como Anda (Andar a pé eu vou)
  • 2º lugar: Quicko - Compartilhamento de rotas

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