Superior geral dos Arautos do Evangelho, da Igreja Católica, renuncia

Vaticano estaria investigando irregularidades na sociedade católica, segundo blog de jornal italiano

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

16 de junho de 2017 | 17h54

O superior geral da sociedade Arautos do Evangelho, da Igreja Católica, monsenhor João Scognamiglo Clá Dias, renunciou ao cargo, com a justificativa e que, ao chegar aos 77 anos de idade, lhe pareceu justo, aos olhos de Deus e de Maria Santíssima, deixar sua função, a fim de que um filho seu (padre da instituição)  “possa conduzir a Obra à perfeição desejada por Nossa Senhora”. Tomada no dia 2 de junho, a decisão foi anunciada na segunda-feira, 12.

A Sociedade Clerical de Vida Apostólica Virgo Flos Carmeli , ou Arautos do Evangelho, tem cerca de 200 sacerdotes e está presente em 78 países, onde atua com mais 2.820 membros do setor masculino e 1.260 do setor feminino, além de 50.557 famílias e membros solidários. Fundada em 2001, com a aprovação do papa João Paulo II, a sociedade é uma dissidência da TFP (Tradição, Família e 

Propriedade), após a morte de seu criador, Plínio Corrêa de Oliveira, morto em 1995, de quem Monsenhor Plá foi secretário.

A renúncia do superior geral coincide com a notícia, divulgada pelo jornalista Andrea Tornielli, no blog Vatican Insider, do jornal italiano La Stampa, de que o Vaticano estaria iniciando investigações a respeito de supostas irregularidades em Arautos do Evangelho, com a provável nomeação de um visitador apostólico para apurar denúncias chegadas a Roma. A iniciativa, que partiria da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, presidida pelo cardeal brasileiro João Braz de Aviz, não foi confirmada por fontes do Vaticano ouvidas pelo Estado

Segundo Tornielli, a sociedade Arautos do Evangelho teria recorrido a práticas de exorcismo fora das fórmulas da Igreja e promovido cultos particulares de devoção a Plínio Corrêa de Oliveira, à mãe dele, Dona Lucília, e ao próprio monsenhor Clá, embora ele ainda esteja vivo. Um vídeo divulgado sem autorização dos Arautos mostra cenas do exorcismo. O chefe do setor de imprensa dos 

Arautos, Padre Alex Brito, nega que as denúncias não têm fundamento. 

“A referência a exorcismo pode-se referir a bênçãos de cura, que fiéis costumam pedir aos padres, em qualquer igreja ou paróquia, nada tendo a ver com a expulsão de demônios”, disse padre Alex. Segundo ele, a sociedade é “uma instituição ilibada”, que nada tem a esconder. Depois da aprovação de João Paulo II em 2001, Arautos do Evangelho foi elevada a Sociedade de Vida Apostólica por 

Bento XVI, em abril de 2009.

Quatro dias após a renúncia de Monsenhor Clá, a agência Gaudium Press, dos Arautos, divulgou nesta sexta-feira, 16 de junho, extensa nota na qual desmente as informações publicadas no blog Vatican Insider e acusa Tornielli, a quem acusa de estender ao fundador da sociedade críticas e mentiras feitas há mais de 20 anos à TFP, a Plínio Corrêa de Oliveira e à mãe dele, Dona Lucília.

“Qual o intuito do Sr. Andrea Tornielli, ao atacar os Arautos do Evangelho? Criar um cisma na Igreja?”, questiona a nota.  O texto compara o vaticanista a um camaleão, cujas “publicações registram uma arguta capacidade de adaptar-se ao ambiente em que se encontra, para desenvolver a sua atividade: soube sorrir para João Paulo II, afagar o pontificado de Bento XVI e, ao mesmo tempo, preteri-lo discretamente, quando já andava de braços dados com Francisco...” 

Os arautos, homens e mulheres, usam um uniforme de estilo militar medieval, com túnica beje, ornada com o desenho de uma grande cruz, botas de cano longo e um rosário na cintura. A sociedade tem duas basílicas na região metropolitana de São Paulo – uma na Serra da Cantareira, e outra entre Cotia e Embu das Artes

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