Surge novo indício de manipulação de BOs em SP

Uma mensagem enviada pelo diretor da Delegacia de Interior de São José dos Campos aos delegados seccionais da região do Vale do Paraíba, no Litoral Norte e Serra da Mantiqueira levanta novos indícios de que a Secretaria de Segurança Pública estaria recomendando a manipulação dos boletins de ocorrência. A mensagem, um e-mail enviado em 5 de fevereiro, orienta os policiais civis a lançarem o número de ocorrências no quadro estatístico diário de cada seccional, e não o número de vítimas. O texto do diretor do Deinter-1, Antonio Carlos Gonçalves da Silva, menciona uma reunião com a coordenadoria de análise e planejamento da secretaria realizada em 2 de fevereiro. "Fomos informados de que o número de registros a ser lançado no quadro estatístico diário (...) deve referir-se à quantidade de boletins de ocorrência elaborados a cerca da fatispécie (tipo de crime) e não ao número de vítimas envolvidas." O texto continua citando um exemplo de três indivíduos, vítimas de homicídio no mesmo local, horário, circunstância e pelo mesmo autor ou autores. "O registro, no quadro estatístico, deve ser de apenas uma ocorrência." As estatísticas divulgadas pela secretaria mencionam apenas as ocorrências e não o número real de vítimas. Segundo o titular da pasta, Marco Vinício Petrelluzzi, isso correria por orientação de estatísticos e de um manual da Fundação Sistema Estadual de Analise de Dados (Seade), de que devem ser registrados apenas as ocorrências e não o número de vítimas. "Isso ocorre há 10 ou 15 anos, sempre foi assim", argumentou Petrelluzzi. Para o deputado estadual Vanderlei Siraque, a mensagem é uma "prova cabal de que há manipulação de dados". "A impressão que dá é que quem criou este sistema não conhece a realidade de violência em São Paulo, ou conhece muito bem", ironizou o parlamentar. Siraque é autor do pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as suspeitas levantadas pelo presidente do Sindicato dos Delegados do Estado de São Paulo, Paulo Roberto Siquetto, de que a secretaria estaria pressionando os policiais a reduzirem as estatísticas sobre a criminalidade em São Paulo pelo número de BOs registrados. O diretor do Deinter disse ao Estado que a mensagem enviada aos delegados seccionais é fruto de uma "discussão para aperfeiçoar as estatísticas do Estado." "Não ouvi da boca do secretário nem de ninguém qualquer recomendação para omitir o número de vítimas". Petrelluzzi garantiu que as mudanças na coleta de dados decorrem do aprimoramento das estatísticas fornecidas pela secretaria. E que, a partir do primeiro semestre de 2002, serão divulgados tanto o número de ocorrências quanto o de vítimas. Há 20 dias de 2001 terminar, a secretaria ainda não divulgou os números relativos ao terceiro trimestre deste ano.

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