Suspeitos da morte de brasileiro são condenados por agressão em Portugal

Nenhum dos 13 adolescentes que eram acusados de terem assassinado o travesti paulistano Gisberto Salce Júnior, no Porto, em fevereiro deste ano, foi condenado pela morte, mas apenas por agressões."Achamos isso escandaloso. É uma questão de direitos humanos: toda pessoa que é assassinada tem o direito de ver reconhecida a natureza da morte que sofreu. O tribunal não reconheceu a tentativa consumada de assassinato", conta Sérgio Vitorino, da associação de defesa dos homossexuais Pantera Rosa.Dos 13 acusados - todos entre os 12 e os 15 anos de idade -, seis vão ficar em regime semi-aberto num centro educativo por 13 meses. Eles foram considerados culpados de agressão física e tentativa de profanação de cadáver. Cinco, acusados apenas de agressão, ficarão internados em regime semi-aberto por 11 meses. E dois terão acompanhamento educativo por um ano."Essas penas não significam nada. Eles já estavam em regime semi-aberto antes. Nós queremos que este tipo de crime deixe de acontecer e a decisão não vai ajudar a isso", afirma Vitorino. Como conseqüência, os grupos de defesa dos direitos homossexuais vão realizar uma campanha internacional de denúncia da justiça portuguesa.O crimeCom 46 anos, Gisberto - conhecido como Gisberta ou Gis - estava em Portugal desde 1990. Começou no circuito de boates onde fazia espetáculos imitando Daniela Mercury. Caiu na prostituição, tornou-se viciado em heroína, contraiu aids e tuberculose e, antes de morrer, vivia numa construção abandonada na cidade do Porto.Na noite de 17 para 18 de fevereiro, um grupo de adolescentes internados na instituição de solidariedade social Oficinas de São José - ligada à Igreja católica - agrediu fisicamente Gisberto no local em que vivia. Dois dias depois, parte do grupo voltou ao local e, pensando que estava morto, atirou o corpo para o fundo de um poço - segundo o médico legista, ele ainda estava vivo e acabou morrendo afogado.No dia 22, um dos jovens teve uma crise de consciência e contou o que tinha acontecido a uma professora. Nesse dia, o corpo foi resgatado pelos bombeiros. Apenas um dos 13 ficou em prisão preventiva, mas depois de dois meses esta foi relaxada.O julgamento começou em 3 de julho e decorreu à porta fechada, com a justificação de que era necessário proteger os menores. Dois dias antes da leitura da sentença a promotoria desistiu da acusação de homicídio. Nas Oficinas de São José a reação foi de omitir as culpas. Segundo o episcopado, não houve nenhuma conduta errada por parte da direção da instituição no processo educativo dos jovens.

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