Taifeiros se queixam de picuinhas das patroas

"Quando entrei no quartel, aos 18 anos, meu sonho era desfilar no 7 de Setembro. Sou militar há quase 20 anos e nunca me deixaram desfilar", ressente-se o taifeiro Manoel (nome fictício), de Brasília. Enquanto militares que ocupam outras funções costumam trabalhar uma média de oito horas por dia e fazem revezamento em fins de semana e feriados, os taifeiros não têm limite de trabalho. "É sábado, domingo, feriado, tudo. Já fiz e servi várias ceias de Natal para generais, seus familiares e amigos, sem receber sequer um ?feliz Natal? antes de ir embora", reclamou João (nome fictício), também de Brasília. Os taifeiros costumam chegar por volta das 7 horas, para servir o café do general. A hora de ir embora depende da sensibilidade do chefe. Há os que saem após o almoço; outros só vão depois do jantar. "Trabalhei para um general que me fazia ficar lá das 6 às 20 horas. Pedi para sair mais cedo e voltar a estudar, mas ele não me liberou. Ele queria que eu ficasse lá até a mulher dele voltar do trabalho para ferver água para ela tomar chá", afirmou Thiago (nome fictício), de Brasília. Em 1988, um comandante do Exército, preocupado com a imagem da instituição frente a acusações de abuso pelo horário ilimitado dos taifeiros, propôs uma limitação: 60 horas semanais. A idéia não prosperou e o trabalho continua sem limites. Mas pior que isso, dizem todos, é a forma humilhante como são tratados. Para se ter uma idéia, eles são os únicos militares obrigados a se submeter a exames de saúde trimestrais, incluindo o de HIV, para não comprometer a saúde dos superiores. "Eu me sinto envergonhado. Se não fizer, é motivo de punição", disse Roberto. "Já tive de passear com cachorro, cuidar até de jardim e de piscina. Teve uma mulher de general que vivia me chamando de doido e dizia que eu maltratava o cachorro", afirmou Manoel. Mas, segundo ele, as acusações de maus-tratos não se restringiam ao cão. "Uma vez, eu estava limpando a gaiola do passarinho. Ela falou comigo, eu levantei e bati na gaiola, que ameaçou cair. Ela disse que eu não prestava, que maltratava o passarinho também. Fui responder e ela me mandou calar a boca, senão iria ligar para o general e mandar me prender." Manoel ficou escolado em chiliques. Ele, que disse já ter servido até de babá e feito compras de supermercado para o oficial, já viu uma patroa arrebentar uma melancia no chão, na sua frente, alegando que ela não estava dura o suficiente. Thiago não agüentou um desses faniquitos e respondeu à mulher do chefe. "Pedi para sair e fiquei quatro dias preso por insubordinação. Depois, ele começou a me perseguir."

O Estadao de S.Paulo

10 Agosto 2008 | 00h00

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