Tão longe, tão perto... De Lula e do eleitor

Quem votou em Serra pede a Dilma distância do ex; quem deu voto à petista, quer sintonia com antecessor

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2011 | 00h00

A produtora cultural Lulu Librandi mora e circula pelos Jardins, região paulistana de classe média alta, na qual o candidato José Serra (PSDB) obteve o maior índice de votação na eleição presidencial do ano passado. De cada dez votos ali registrados, oito eram dele. Lulu, além de votar no tucano, ajudou a divulgar suas propostas. Agora, procurada para comentar os primeiros 100 dias de governo da primeira mulher presidente, ela dá a entender que se mantém do mesmo lado.

"A economia vai mal, o PAC não funciona, a área cultural não é levada a sério e, para piorar, a presidente foi se meter onde não devia, na troca de comando da Vale", diz Lulu, de uma arrancada só, mal iniciada a conversa. Mas então não sobra nada? A resposta é rápida: "O elogiável neste governo é a política externa, que deixou para trás os radicalismos do (Celso) Amorim. Na minha opinião, se ela quiser fazer um bom governo, tem de se desvencilhar das amarras com o governo anterior".

Essa opinião é comum entre eleitores de Serra e também de Marina Silva (PV), terceira colocada na eleição do ano passado. A simpatia deles por Dilma tende a aumentar à medida em que ela se distancia do onipresente padrinho Luiz Inácio Lula da Silva.

O apresentador de TV Luciano Huck, que também ajudou a divulgar a candidatura Serra pelo seu Twitter (ele é um dos mais seguidos do País), disse ao Estado por e-mail que está satisfeito com o que viu nos primeiros 100 dias. E explica: "Acho que ela está conseguindo sair da sombra do Lula, dando uma personalidade própria à sua gestão. Achei corajosa a decisão clara dos novos rumos da política externa".

No campus da USP em São Paulo, onde estuda e desenvolve pesquisas para sua tese de doutorado, o farmacêutico Renan Orsati Clara, de 25 anos, segue a mesma trilha. Eleitor afinadíssimo com Marina, a ponto de anular o voto no segundo turno, ao falar do governo Dilma o primeiro nome que lhe vem à boca é o de Antonio Patriota, o ministro das Relações Exteriores.

"Ele vai bem, com escolhas que não são as mesmas do Lula na área de direitos humanos. Isso dá independência ao governo. O Patriota deveria ser exemplo para os outros ministros", afirma o estudante.

A socialite Ana Paula Junqueira, que durante a campanha pilotou um jantar para angariar fundos e votos para Marina, elogia como os outros a mudança na política externa e vai além, sugerindo que Dilma é mais educada no trato com a oposição. Após dizer que a popularidade da presidente deve-se em parte às "boas relações que mantém com os governadores e prefeitos de todos os partidos", conclui: "Afinal, nestes cem dias não se viram conflitos com a oposição."

Perto de Lula. O sentimento dos eleitores que votaram em Dilma é diferente. Eles gostam quando ela mostra estilo próprio, mas não querem que se distancie muito de Lula. Afinal, votaram nela para dar continuidade ao que ele fazia, como lembra Domingos Santana, empregado de uma banca de jornais e revistas, no bairro da Casa Verde, na zona norte. "Estou preocupado com esse aumento da gasolina", diz ele. "No tempo do Lula era mais barato. Não sei não se ele deixaria o aumento vir do jeito que veio."

Para ele, a presidente pode e deve "governar do jeito dela", mas sem perder de vista que "tem de seguir o Lula".

No bairro do Limão, ainda na zona norte, outro empregado de banca de jornais, José Cândido Neves, parece adoçar a boca quando fala do governo que ajudou a eleger: "A Dilma está indo além das minhas expectativas. Tem pulso, fala pouco. É austera, trabalhadora. Mulher de ação."

Indefinições. Além do que os eleitores gostam e não gostam em relação aos 100 dias, o que se observa nas conversas é a presença de dúvidas sobre o que vem por aí. Na maior parte das vezes isso ocorre por falta de definições nas políticas de governo.

"Estou ansioso para ver como ela vai erradicar a miséria", diz o apresentador Huck, numa referência às constantes afirmações da presidente sobre o fim da miséria em seu governo. Embora repita isso a cada discurso, Dilma ainda não apresentou o plano para chegar lá.

"A falta de projetos para as reformas política e tributária também são pontos negativos do governo", diz Ana Paula. "Ainda não consegui ver de maneira clara qual a política para a área de saúde", completa o farmacêutico Renan.

Na avaliação do empresário paulista Roberto Young, candidato derrotado ao Senado pelo PV, Dilma entrou em cena para dar continuidade ao governo Lula, mas já deixou claro que sua vocação gerencial é maior, assim como é menor a disposição para concessões políticas. Os maiores desafios, porém, ainda estariam à frente. "Ela assumiu sabendo que teria de fazer um grande acerto macroeconômico, mas até agora tratou a questão em banho-maria, sem o rigor necessário", diz Young.

Parece que o desafio proposto a Dilma por eleitores de diferentes tendências é ser ela mesma, distanciando-se de Lula, mas não a ponto de esquecer que foi eleita para dar continuidade ao que ele fazia. É possível?

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