Tatuzão passará ao lado do Copan

Prédio tem deslocamento vertical que chega a 35 centímetros; velocidade de máquina será reduzida no trecho

Mônica Cardoso, O Estadao de S.Paulo

25 Outubro 2008 | 00h00

Na próxima semana, o equipamento utilizado para as escavações da Linha 4 chegará à Avenida Ipiranga, na região central de São Paulo. Nesse ponto do trajeto, a cautela do Consórcio da Via Amarela será redobrada, basicamente por dois motivos. Primeiramente, há a passagem do shield ou megatatuzão, como é chamado, entre duas estacas de fundação do Viaduto Alcântara Machado, que faz a ligação leste-oeste na capital. Esse equipamento passará a 0,5 metro de distância de cada estaca. Outro problema é a proximidade do Edifício Copan, que apresenta um recalque, isto é, um deslocamento vertical na área de fundação. Por causa disso, o prédio é monitorado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) desde 1956, dez anos antes da conclusão. "Em termos absolutos, esse ?afundamento? atualmente é de 35 centímetros", explica a engenheira civil Gislaine Coelho de Campos, do IPT, que considera que o megatatuzão terá pouca interferência no recalque. Para minimizar eventuais danos, o Consórcio Via Amarela realizou uma vistoria cautelar nos imóveis da região, incluindo parte do Copan. "Fizemos um levantamento histórico dos locais para checar se apresentam algum recalque. Quando as informações estavam incompletas, executávamos um trabalho investigativo na Prefeitura", diz Márcio Pellegrini Ribeiro, diretor de Contratos do Via Amarela. Segundo ele, dentre os prédios da região, apenas o Copan apresenta recalque. Síndico do Copan há 15 anos, Affonso Celso Prazeres de Oliveira, concorda que se tomaram todos os cuidados. "Foi feita uma perícia nas lojas e apartamentos." Serão adotadas medidas especiais para diminuir os riscos, incluindo quatro vezes mais leituras de monitoramento que as usuais. A velocidade média do megatatuzão será menor nesse trecho, de 8 a 10 metros de avanço por dia - quando o normal é um progresso de até 18 metros, podendo chegar a até 34 metros diários, dependendo do tipo de solo. Mais dez pinos de recalque serão instalados no edifício e a instrumentação será feita a cada 6 metros, enquanto o usual seria a cada 25 metros. PROJETO ARROJADO De acordo com a engenheira do IPT, o processo de recalque não tem uma causa única e depende dos tipos de solo e de fundação. Pode ser causado por interferências que mexem com o maciço, como escavações próximas da área e rebaixamento do lençol freático. O solo passa a ter um espaço vazio que não tinha antes e o edifício se acomoda a esse novo espaço. "Para a época, o Copan já era um projeto arrojado, que suscitou um monitoramento das características geológicas", lembra Gisleine. O monitoramento do IPT é feito em 40 pilares estruturais do prédio principal. Como o recalque não se registra por igual, os pinos apresentam certas diferenças. Enquanto o de número 40 apresenta 23 centímetros de recalque acumulado, o de número 20 tem 35 centímetros. Ela explica que não é possível precisar se a causa foi a fundação dada ao prédio. O Copan é a maior estrutura de concreto armado da América Latina. "Foram utilizados 400 quilos de cimento para cada m³ de concreto, o que é mais do que necessário, mas se seguia a tecnologia da época", diz o síndico. De acordo com a engenheira do IPT, outros edifícios em São Paulo também apresentam recalque. Em Santos, por exemplo, a fundação de alguns prédios é bem rasa e fica na camada de areia. Hoje, a fundação adota um modelo mais sofisticado, indo até as rochas. "Existe a técnica de cravação, em que estacas são enterradas com o objetivo de permitir mais estabilidade. Algumas chegam até 60 metros de profundidade", observa. O movimento de recalque é imperceptível porque ocorre de forma lenta e espaçada. Ele pode, por exemplo, causar fissura em painéis de alvenaria, dificuldade de abrir ou fechar portas e janelas ou a necessidade de calçar uma mesa. A cautela do Consórcio na região central também se deve ao congestionamento no subsolo com as diversas redes de infra-estrutura de água, gás, esgoto, telefonia e fibra ótica. Muitas dessas tubulações são tão antigas que nem constam nos cadastros das concessionárias.

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