Teatro vira elemento de inclusão e balada

Grupo, que surgiu da luta contra os manicômios, socializa deficientes

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

23 de abril de 2009 | 00h00

O ator Bruno Cordeiro, de 19 anos, chega ao teatro antes dos demais. Entrega seu remédio à diretora executiva, Claudia Alonso. "É para eu tomar às sete, tá?" E segue apressado para o camarim. Ao lado de outros 20 atores, ele estreia sua quarta peça, Só(is) Amarelos, hoje, no teatro do Sesc de Santos, no litoral paulista. Portador de uma síndrome, Bruno é tão dedicado ao papel e focado na interpretação - ele faz o folclórico boi-bumbá - que, no ensaio, se esquece de tudo. Por isso confere a função do remédio à Claudia, psicóloga, atriz e adorada pelos alunos das oficinas da Associação Projeto Tam Tam.O trabalho surgiu há 20 anos da luta antimanicomial e se transformou em fenômeno na Baixada Santista e exemplo de projeto de inclusão social. Mas Claudia e o arte-educador Renato Di Renzo, criador da associação, têm horror à expressão inclusão. Isso porque suas aulas não fazem distinção de ninguém. Recebem atores amadores e profissionais, crianças, jovens, adultos, portadores de necessidades especiais ou não. "Meu teatro, se é bom, é porque é bom. Não interessa se tem gente de cara feia ou bonita", diz Di Renzo. O trabalho atende 140 pessoas em diferentes oficinas e projetos e é voluntário.Para angariar fundos, eles abriram as portas do pequeno espaço cedido em um canto do Teatro Municipal de Santos. Decorado com objetos doados e reciclados, o lugar se transformou em espaço lúdico, que chega a atrair 2,5 mil pessoas por mês às sextas e sábados em uma balada animadíssima, que começa às 22 e vai até as 3 horas. Num escuro teatro municipal, com ares de abandono, o visitante descobre vida atrás das cortinas do Café Teatro Rolidei. Ali se resgatou o teatro de arena - todo sábado, o capítulo de uma novela é interpretado ao vivo. Há música, dança e fantasias. No meio da noite, já não se sabe quem é público, ator, voluntário ou aluno. São todos iguais, como no palco. Vinte alunos do Tam Tam, entre eles nove portadores de necessidades especiais, acabam de voltar de Portugal, onde se apresentaram em um festival de teatro, com a Só(is) Amar-Elos, que mistura dança, música, mímica e arte cênica. O figurino foi produzido a muitas mãos, por pais de alunos,voluntários e até o público do Rolidei. "Com o teatro, minha filha tomou consciência dela própria, adquiriu mais respeito pelo outro e aprendeu a controlar as emoções", diz Elisabetre Pillilini, mãe da atriz Francisca, de 16 anos, que esteve em Portugal. "A síndrome de down nunca a impediu de nada." Questionada se gosta de teatro, Francisca abre um sorriso largo: "Fiquei muito mais feliz da minha vida!""Esse tipo de grupo não é frequente, mas é muito querido", diz o diretor do Sesc-SP e agitador cultural, Danilo Miranda. "Ele lida com a diferença da forma mais profunda e radical possível justamente porque derruba a barreira do diferente."

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