Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Tecnologia precisa se humanizar para ajudar a melhorar a mobilidade, dizem especialistas

Especialistas discutiram os problemas e as soluções para cidades como São Paulo durante o Summit Mobilidade 2019

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2019 | 20h08

Veículos autônomos, aplicativos que mostram os melhores trajetos, sistemas de compartilhamento de bicicletas, carros e patinetes. Os avanços tecnológicos revolucionaram a forma como as pessoas se locomovem nos espaços urbanos. Mas a tecnologia, sozinha, não garantirá um trânsito melhor e uma cidade mais amigável se as inovações não forem desenvolvidas de forma integrada e com a participação do cidadão.

A análise é de especialistas em transporte e urbanismo que, nesta quinta-feira, 30, participaram do Summit Mobilidade Urbana 2019, evento promovido pelo Estado em parceria com a 99 em São Paulo. Ao longo de todo o dia, mais de 20 palestrantes apresentaram os mais urgentes desafios das grandes cidades e debateram possíveis soluções para que a mobilidade faça do ambiente urbano um espaço mais inclusivo, seguro e fluido.

De acordo com os especialistas, é inegável que as tecnologias e os dados gerados por elas trouxeram novas possibilidades de locomoção e negócios. Ainda falta, no entanto, avançar em uma análise mais inteligente (e humanizada) dessas informações. “Inovação não é só tecnologia, grandes obras ou carros autônomos. Em paralelo, a gente precisa pensar nos incentivos que damos para as pessoas mudarem seu comportamento”, destacou Ana Guerrini, diretora de Políticas Públicas e Relações Governamentais da 99.

Uma maior participação das mulheres na elaboração de políticas públicas de mobilidade foi apontada, por exemplo, como uma das mais urgentes necessidades. Em um dos painéis, focado neste tema, as debatedoras ressaltaram que são elas as mais vulneráveis nos espaços urbanos.

“Uma das descobertas que fizemos em nossas pesquisas é que o andar a pé é muito mais feminino e que os pontos de ônibus são os lugares em que as mulheres se sentem mais vulneráveis. Mesmo com risco de assédio sexual, esses deslocamentos ainda precisam ser feitos”, disse Juliana de Faria, diretora-executiva da ONG Think Olga. “Câmeras e outras ferramentas não são suficientes enquanto não ampliarmos o debate sobre machismo na sociedade”, disse.

Para isso, é importante que as mulheres estejam em órgãos de tomada de decisão, ressaltou Stella Hiroki, doutora e palestrante sobre cidades inteligentes. Ela citou iniciativas na Índia e em Cingapura nas quais órgãos de regulação e políticas de mobilidade são comandados por mulheres. “A grande virada para virarmos smart cities (cidades inteligentes) é ter pluralidade no desenvolvimento dos negócios e das políticas. Antes do desenvolvimento da tecnologia, há pessoas”, defendeu. 

De acordo com Weber Sutti, diretor de projetos da Fundação Lemann, é preciso transformar as inovações tecnológicas em melhorias que facilitem o deslocamento das pessoas e democratizem o acesso à cidade. “Temos um grande sistema de transparência, cheio de dados, só que não temos sistema de inteligência que compare esses dados. Quando as pessoas não conseguem acessar o transporte, elas ficam confinadas”, destacou. “Estamos compartilhando bikes e carros, mas e os dados?”, completou Bianca Bianchi Alves, especialista em transporte urbano do Banco Mundial.

Para democratizar esse acesso e diminuir a desigualdade territorial, os especialistas defenderam a criação de “novas centralidades”, com estímulos do poder público para um maior desenvolvimento de áreas periféricas das cidades. “Pequim criou incentivos para levar empresas de tecnologia para uma região a 20 quilômetros de distância do centro. Deu certo. Vários empregos de qualidade foram criados ali, há mais gente morando nessa região e diminuiu o estresse sobre a rede viária”, exemplificou Ilan Cuperstein, vice-diretor regional da C40 para América Latina

As parcerias, dizem os especialistas, são fundamentais para alcançar essas metas. Elisabete França, diretora de planejamento e projetos da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), destacou que o trabalho conjunto com a sociedade civil e empresas têm sido fundamental para a Prefeitura acompanhar o ritmo das inovações tecnológicas e tornar a cidade mais segura e inclusiva. “Temos os dados dos aplicativos de transporte, que são muito legais e podem nos ajudar a planejar ações de segurança. Temos também parceria com cicloativistas, que nos ajudam no plano de metas quanto a ciclovias”, relatou. “O momento é de muita novidade e a Prefeitura tem que se adequar a isso”, completou.  

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