Telas roubadas estão avaliadas em pelo menos R$ 3,5 milhões

Entrega de flores pelo Dia das Mães serviu de desculpa para quadrilha invadir casa, fazer reféns e roubar obras

José Dacauaziliquá, O Estadao de S.Paulo

11 de maio de 2009 | 00h00

Na manhã de ontem, Dia das Mães, um rapaz com um vaso de flores tocou a campainha da casa de Ilde Maksoud, de 80 anos, na Rua Estados Unidos, no Jardim América, zona sul da capital. Começava assim o plano de uma quadrilha, que culminou com o roubo das telas Cangaceiro, Retrato de Maria, ambos de Candido Portinari, e Figura em Azul, de Tarsila do Amaral. Especialistas avaliam as obras em R$ 3,5 milhões. Além delas, uma quarta obra de arte, Crucificação de Jesus, de Orlando Teruz, um discípulo de Portinari, também teria sido levada.Ilde, a nora Maria Paula e quatro funcionários da casa foram mantidos reféns por uma hora. Os bandidos reviraram toda a casa e ainda tentaram levar uma escultura do artista Victor Brecheret. Eles quebraram a base, mas não conseguiram levar a peça. Os bandidos fugiram e até o final da noite de ontem ninguém havia sido preso.Os parentes de Ilde (ex-mulher de Henri Maksoud, proprietário do hotel que leva o nome da família) acreditam que os criminosos tinham como objetivo roubar as obras de artes. A polícia trabalha com a hipótese de que a quadrilha estivesse em busca de joias e de dinheiro. Ao não encontrar o que queria, teriam levado os quadros para "não perder a viagem". Os retratos falados de quatro criminosos que participaram da ação começaram a ser elaborados ontem. De acordo com o delegado Celso Damasceno, do 78º Distrito Policial (Jardins), eles deverão ser finalizados e divulgados hoje. A polícia não tem o número exato de integrantes da quadrilha. Mas, à tarde, chegou-se a falar em 20 participantes da ação. Os homens que invadiram a casa não usavam máscara nem capuz.?ENTREGA PARA DONA ILDE?A ação foi bem planejada. Às 9 horas, uma perua Fiorino, um carro de fachada de uma floricultura, estacionou em frente da casa. Um rapaz desceu com um vaso e tocou a campainha, que foi atendida pelo porteiro José Candido da Silva, de 48 anos. "É uma entrega para a dona Ilde Maksoud", disse o assaltante. Por ser Dia das Mães, o porteiro e a arrumadeira Maria Aparecida Nicoleti, de 48 anos, não desconfiaram de nada.Silva foi, então, rendido pelo assaltante, que sacou uma pistola. Outros comparsas do bandido, também armados, entraram na casa. Em seguida, eles renderam o caseiro e a cozinheira. Os três foram imobilizados com algemas plásticas (lacres) e mantidos na cozinha, sob a vigilância de dois bandidos.Os criminosos perguntaram por Ilde, que segundo os funcionários ainda dormia. Na parte superior da residência, eles renderam a arrumadeira e, por último, a proprietária, que foi obrigada a acompanhá-los até o escritório, onde fica o cofre. Mas ele estava desativado e vazio.Com todos os presentes dominados, os bandidos começaram a revirar a casa. Com um objeto cortante, arrancaram as obras das molduras. Segundo o delegado, ainda pegaram objetos de pouco valor, como canetas e bijuterias das funcionárias. Segundo um dos netos de Ilde, os ladrões também levaram a aliança de casamento dela e um relógio.Depois de uma hora, a campainha novamente tocou. Era Maria Paula quem chegava. O caseiro foi autorizado a atender a porta, para não levantar suspeitas. A nora de Ilde também foi dominada."A toda hora eles conversavam pelo rádio (radiocomunicador). Um deles ficou alterado porque eles não estavam encontrando objetos de valor (joias e dinheiro). Eles falaram ainda que iriam dar uma surra na pessoa que passou as informações (sobre o roubo)", contou a arrumadeira Maria Aparecida.Antes de ir embora alguns bandidos ainda fizeram um lanche na cozinha. Depois saíram pela porta da frente e fugiram. Levaram com eles o vaso de flores que serviu de isca para o assalto. O objeto poderia ter as impressões digitais de alguns dos bandidos. Após o assalto, Maria Paula, que havia conseguido esconder o celular, foi quem chamou a polícia. Ilde, bastante abalada, foi atendida pelo médico da família. OBRAS MAIS VALIOSAS 1. Cangaceiro (1956), de Candido Portinari 80 cm x 1 mValor estimado: R$ 1,2 milhão2. Retrato de Maria (1934), de Candido Portinari74 cm x 61 cm Valor estimado: R$ 300 mil3. Figura em Azul (1923), de Tarsila do Amaral 81,5 cm x 60 cmValor estimado: R$ 2 milhões

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