Telhada voltou: ''O crime que se cuide''

Fatos mostram que tudo acontece com o novo comandante da Rota

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

Há na polícia homens conhecidos porque com eles tudo teima em acontecer. Novo comandante da Rota, o tenente-coronel Paulo Adriano Lopes Telhada é um desses. Ele já levou pedrada em manifestação na Avenida Paulista, foi baleado duas vezes e promovido por ato de bravura. Participou de mais de 20 tiroteios com uma dezena de mortes - a última em 2008, nos Jardins, zona oeste de São Paulo, quando chefiava o 7º Batalhão. "Tudo acontece comigo." É respeitado pela comunidade gay paulistana e toca clarinete na igreja onde é o "irmão Paulo".Fazia 17 anos que Telhada estava fora da Rota. O braçal e a boina preta estavam no armário - havia o sonho de voltar um dia. Aos 47 anos, o tenente-coronel, que tem em sua ficha dezenas de elogios e punições, assumiu o batalhão no dia 8. E, já no primeiro dia, a Rota fez uma operação contra o crime organizado. Prendeu dois traficantes, apreendeu sete armas e dois carros. À noite, após um roubo, uma equipe do batalhão matou dois acusados do crime e prendeu um terceiro, um presidiário que recebera o direito de passar o Dia das Mães em casa."A Rota vai agir na legalidade. Ela não vai sair na rua para matar. Mas, se o vagabundo puxar a arma para um policial da Rota, meu homem vai voltar vivo para casa. Se a Rota chegar, é pra se entregar." Em sua mesa no quartel, o tenente-coronel mantém fotos da família, um boneco do Super-Homem e uma réplica de um avião B-17, usado pelos aliados na 2ª Guerra Mundial - ele escreveu uma história sobre a participação da polícia paulista na Força Expedicionário Brasileira (FEB), na campanha da Itália, na 2ª Guerra Mundial. "Vou no dia 31 à França assistir às comemorações do desembarque na Normandia."Telhada está vibrando. "Ele tem uma ascendência impressionante sobre a tropa", disse o coronel da reserva Mário Fonseca Ventura. Sua família o viu apenas um dia desde que assumiu o batalhão. Foi no domingo, quando Telhada se transforma no irmão Paulo, da Congregação Cristã do Brasil. O comandante é homem religioso. Ao aperto de mão, segue-se a saudação: "A paz de Deus, irmão." Evangélico desde o tempo em que eles eram chamados de "crentes", Telhada tinha 15 anos quando foi batizado. Depois, virou policial. Saiu aspirante na turma de 1983 da Academia de Oficiais do Barro Branco. Tinha dúvidas sobre o que ocorreria caso matasse alguém, mas foi tranquilizado pelo pastor, que disse: "A porta que Deus abre, ninguém fecha." Aos 23 anos sua equipe matou dois bandidos, prendeu outros dois e libertou 11 reféns. Acabou condecorado. O tenente Telhada, que estava no 4º Batalhão, foi parar na Rota. Era 23 de junho de 1986, quando entrou no famoso quartel amarelo da Avenida Tiradentes, no centro.Ali o tenente começou a criar fama de que tudo acontecia com ele. Uma vez, acompanhado da reportagem do Jornal da Tarde, parou em uma delegacia para deixar um suspeito quando uma mulher lhe disse que havia sido expulsa de casa por um bandido. Telhada foi à Vila Brasilândia, na zona norte. Mandou o homem sair. O suspeito abriu a porta e deu três tiros. Acertou o braço do tenente; acabou morto. "Fui baleado duas vezes. A outra foi na mão.""É um homem que conhece bem a unidade", disse o vice-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado Conte Lopes (PTB). "Quem trabalha tem de ser valorizado." Ex-oficial da Rota, Conte é o maior representante da corrente de policiais que pensa que bandido bom é bandido morto. Antes de se eleger deputado em 1986, ele recebeu duas promoções por bravura em tiroteios com morte. Telhada obteve uma sem matar ninguém. Ele entrou desarmado em uma concessionária de automóveis, salvou dois reféns, prendeu os ladrões e assim virou capitão.PAULADASEm 10 de abril de 1992, ele saiu da Rota. "A gente lutava pela população e só tomava paulada. A tropa foi se ressentindo." Mesmo fora da Rota, as coisas continuavam a acontecer. Telhada comandava a companhia de Perdizes em 1996, quando cruzou com três ladrões na Avenida Doutor Arnaldo. Eram 9 horas. O tiroteio deixou os três acusados mortos e fez dele o primeiro oficial a deixar o comando de uma companhia para frequentar o Proar - o programa de assistência psicológica da PM, na época obrigatório.Tornou-se amigo do apresentador de TV Gugu Liberato, de quem teria cuidado da segurança. O suposto bico lhe rendeu uma investigação. "Tenho um monte de punição. Já viu policial de rua sem punição?" Passou a trabalhar no centro da cidade e cuidou do policiamento da Parada do Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Travestis e Transexuais), o que lhe valeu a admiração dos participantes. No ano passado, sindicalistas que tentaram entrar no desfile acertaram-lhe uma pedrada na cabeça. Assim o tempo passou, Telhada tirou o bigode e o cabelo ficou ralo e branco. Ele ganhou alguns quilos e as duas estrelas gemadas de tenente-coronel. Mas o raio continuou a cair no mesmo lugar. Em 29 de julho de 2008, uma visita de rotina a um quartel nos Jardins virou mais um tiroteio. O tenente-coronel ouviu pelo rádio que bandidos roubavam um flat na Rua Padre João Manoel. Telhada estava ao lado. Parou, desceu e viu os ladrões pulando um muro. "Eu disse: ?Para, que é polícia. No chão.? Um deles atendeu. Ele jogou a arma no chão, mas o outro correu e atirou." Telhada disparou um único tiro no bandido. Acertou-lhe o tórax.No dia 6, o tenente-coronel foi chamado ao gabinete do secretário da Segurança, Antônio Ferreira Pinto. "Você vai assumir a Rota", disse o secretário. As prioridades eram combater o crime organizado e levar a Rota à periferia. Não se trata de volta ao polêmico passado da unidade. "Na minha época, eram quatro derrubadas (mortes de acusados) por dia. Houve um dia em que ocorreram 19", contou o coronel Ventura, que foi da Seção de Operações da PM nos anos 1970 e 1980.O desejo atual é resgatar um instrumento que muitos coronéis tiveram medo de usar - para evitar problemas, houve comando que mandou a Rota patrulhar só o centro. Telhada sabe que será cobrado. "Vou retomar a doutrina da Rota, a vibração. Nós vamos vencer. A bandidagem que se cuide."

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