Andre Coelho.
Andre Coelho.

Temer envia Exército para a fronteira; Roraima considera medida insuficiente

Ação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) se estenderá por 15 dias e tropas terão poder de polícia em área com risco de conflitos entre brasileiros e imigrantes

Naira Trindade, Tânia Monteiro e Mariana Haubert, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2018 | 19h23
Atualizado 28 Agosto 2018 | 23h03

Preocupado com a possibilidade de acirramento dos ânimos em Roraima, onde há um clima de tensão com a constante chegada de venezuelanos às vésperas da eleição, o presidente Michel Temer assinou decreto convocando as Forças Armadas para agir no Estado. Será uma ação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) pelo prazo de 15 dias – entre hoje e 12 de setembro – na fronteira com a Venezuela e nas rodovias federais. O Estado considerou a medida insuficiente.

Por enquanto, só o Exército vai atuar na área, mas terá poder de polícia. Não haverá deslocamento de tropas. A Brigada de Selva, em Boa Vista, tem mais de 3 mil homens em suas fileiras. Anteriormente, o próprio Exército já havia transferido 600 homens para a fronteira, temendo algum confronto. 

A medida foi antecipada na tarde desta terça-feira pela Coluna do Estadão. O ministro da Defesa, general Silva e Luna, afirmou que “não houve solicitação” de reforços da governadora Suely Campos (PP), candidata à reeleição e opositora política do presidente do MDB, senador Romero Jucá (RR). Na segunda, Jucá, candidato à reeleição, anunciou a saída da liderança do governo no Senado, por discordar da “forma como o governo federal está tratando a questão dos venezuelanos”. Ele tem defendido o bloqueio temporário das fronteiras.

De acordo com o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen, as tentativas de entendimento com o governadora sobre como agir foram ignoradas por ela. “A reação (da governadora) até agora tem sido o silêncio e o não reconhecimento de que precisa de ajuda na segurança pública”, declarou, salientando que o Planalto “não cogitou” uma intervenção federal, como a do Rio, e vem ampliando o envio de imigrantes para outros Estados.

No Rio, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, também saiu em defesa da ação, classificada como “absolutamente adequada”. “Como ela (a governadora) não se mobilizou, o presidente decidiu tomar a medida unilateralmente. O Ministério Público Estadual pediu intervenção no Estado por causa da situação prisional, e até a Justiça não está conseguindo funcionar, porque o crime organizado controla o sistema penitenciário e não está permitindo a identificação daqueles que precisam ir para audiências. Tudo isso cria um quadro de tensão, tanto para quem chega como para quem reside no País”, continuou Jungmann. 

Em Boa Vista, Suely Campos disse que desde agosto de 2017 já havia feito a solicitação de uma GLO na fronteira, alegando que “imigrantes venezuelanos vinham se utilizando de cabriteiras (trilhas na mata) para o tráfico de armas e drogas em Pacaraima”. Para ela, agora a medida é “insuficiente para amenizar os impactos que o intenso fluxo migratório têm provocado, nas áreas de segurança, saúde e educação” e cobrou mais recursos federais e ampliação do uso da Força Nacional no policiamento. Em conversas com o general Silva e Luna, reafirmou os pedidos feitos ao presidente Temer de ressarcimento de R$ 184 milhões e instalação de hospital de campanha em Boa Vista, por exemplo.

O prefeito de Pacaraima, Juliano Torquato, também solicitou ação federal mais ampla. “Precisamos é de policiamento do Exército nas ruas.” 

Apoio da comunidade internacional

No pronunciamento, Temer disse ainda que “é preciso buscar apoio da comunidade internacional” para resolver a questão venezuelana, sem dar detalhes. “Essa situação afeta hoje quase toda a América do Sul. Vamos buscar apoio na comunidade internacional e medidas diplomáticas firmes que solucionem esse problema, que não é mais de política interna do País, que avançou fronteiras e ameaça a soberania de vários países, como Equador, Colômbia e outros.”

Com o agravamento da crise migratória, o Brasil passou a se articular com vizinhos da região. Nesta semana, por exemplo, houve uma reunião em Bogotá da qual participaram Colômbia, Equador e Peru. Paralelamente, o País tem apoiado iniciativas destinadas a pressionar o governo de Nicolás Maduro a restaurar a democracia no país. 

A Venezuela já foi suspensa do Mercosul e pode ser suspensa da OEA por romper com os princípios democráticos. Em seu discurso, o presidente fez críticas ao governo Maduro e afirmou que a situação vivida em toda a América Latina e no Brasil, principalmente em Roraima, é fruto “das péssimas condições de vida a que está submetido o povo venezuelano”. / COLABORARAM LU AIKO OTTA, FÁBIO GRELLET e CYNEIDA CORREIA, ESPECIAL PARA O ESTADO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.