Temor de facções na Febem aumenta

Funcionários e mães de internos da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem) estão apreensivos. Eles temem que, a exemplo do que ocorreu no sistema carcerário, as unidades de adolescentes infratores também acabem dominadas por facções.Segundo o presidente do sindicato dos funcionários da Febem, Antônio Gilberto da Silva, reflexos das rebeliões em massa já são sentidas pelos trabalhadores. "Os adolescentes costumam copiar modelos do sistema prisional, e nas unidades já está rolando esse discurso de que se tem de fazer um movimento geral", afirma. "Isso deixa a gente apavorado, principalmente no carnaval."O sindicalista diz que a última semana foi complicada no Tatuapé, em Franco da Rocha e na Unidade de Atendimento Inicial do Brás, que conta atualmente com 280 garotos num local com capacidade para 30. "Nosso medo é porque muitos grupos já chegam formados da rua, nas chamadas bancas", lembra. "Até hoje, eles lideram apenas por unidade, mas, com as transferências freqüentes, podem espalhar-se e criar um comando", acrescenta. "Além disso, com várias unidades sem policiamento externo, se os garotos tentarem fugir e se rebelarem em vários lugares ao mesmo tempo ninguém vai conseguir controlá-los."Outros agravantes, para Silva, são o fato de vários adolescentes terem pais que estão ou já estiveram em penitenciárias e no Carandiru; a revista dos familiares ser feita sem muito rigor nos dias de visita; e a prática freqüente de os internos ligarem para parentes da sala da administração.Para a a presidente da Associação das Mães e Amigos dos Adolescentes em Risco (Amar), Conceição Paganelle, os grupos organizados ainda não se instalaram nas unidades, porque, "apesar de tudo", os internos ainda "têm muito de criança", mas suas crescentes ligações com "gente de fora" e com bandidos realmente são razão de preocupação."Eles (os garotos) são inteligentes, estão ligados no que acontece no mundo e muitos têm relação com o tráfico de drogas", explica. "Além disso, ainda passam um bom tempo sem atividades, como em Franco da Rocha."Conceição afirma que as gangues e rixas já existem nas unidades, assim como casos de entrada de armas. "Depois que um funcionário levou um revólver para dentro de Parelheiros, só falta levar celular", alerta, referindo-se à fuga de 163 menores da unidade na zona sul de São Paulo, em 20 de dezembro, que segundo a Febem foi facilitada por um monitor que forneceu uma pistola 380 milímetros e um revólver calibre 38 em troca de um automóvel Fiat Tipo e quantia em dinheiro.O coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos, Ariel de Castro Alves, concorda. "Apesar de remota, há a possibilidade de se formarem grupos organizados, com pauta de reivindicações, dentro da Febem, pois onde há falta de assistência qualquer grupo que demonstre poder e crie esperança e expectativa vai crescer e prevalecer", diz."Na Febem, além de não haver separação adequada por porte, idade e grau infracional e muitos adolescentes estarem concentrados em unidades grandes, não há controle nem investigação interna para evitar que as articulações ocorram."A assessoria de imprensa da Febem informou que a situação está sob controle em todas as unidades e está sendo reforçada a segurança externa, para que não haja nenhum problema durante o carnaval.

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