''Temos medo de mexer e os livros se desfazerem''

A Romão Puiggari, que já teve alunos famosos, encontra-se atualmente infestada por cupins

Maria Rehder, O Estadao de S.Paulo

22 de setembro de 2008 | 00h00

O prédio do Primeiro Grupo Escolar do Brás, hoje Escola Estadual Romão Puiggari, projetado por Ramos de Azevedo e fundado em 1898, é ameaçado por cupins. Parte do arquivo do colégio do início do século, o que inclui os primeiros livros de ponto dos professores, ocupa uma salinha sem ventilação. "Não sei dizer o que está lá. Temos medo de mexer e acabar estragando o acervo. A orientação é para a equipe limpar com cuidado e não mexer porque muitos dos livros estão se desfazendo", conta a diretora Maria Cristina Canedo.Em uma outra sala, os funcionários da escola organizaram os arquivos dos alunos e históricos emitidos a partir da década de 1950. Nessa documentação, foi encontrado o registro de matrícula do jornalista Heródoto Barbeiro.Dois zeros em matemática contrastam com a nota 10 em história obtida pelo jornalista nos primeiros meses de um ano letivo. "Era um aluno mediano. Não é que eu queira me eximir dessas notas baixas, mas naquela época eu já trabalhava como mensageiro, uma espécie de office-boy de hoje, além de ajudar meu pai em sua oficina mecânica", lembra ele.Apesar de ter notas baixas em latim, essas aulas são citadas pelo jornalista como uma das melhores lembranças da antiga escola. "A professora era ótima e o nível da escola era excelente. A arquitetura e mobiliário eram extraordinários, tudo bem diferente da realidade encontrada hoje nas escolas públicas", avalia. Apesar de o arquivo do final do século 19 estar armazenado de forma inadequada, a escola, porém, não mede esforços para conservar o prédio e resgatar a memória. "Procuramos entrar em contato com os ex-alunos e tomamos muito cuidado com a preservação do prédio. O problema é que falta pessoal especializado e orientação para a gente conseguir organizar a memória", diz a diretora.Sobre os cupins, ela aguarda retorno do governo. "Um engenheiro esteve aqui e disse que a situação é grave. A descupinização terá de ser de barreira, feita de fora para dentro." A Fundação para o Desenvolvimento da Educação - órgão ligado à Secretaria Estadual - informou que a descupinização está em plano de obra.PEREIRA BARRETO"No porão, à noite, não dá para ir", foi a resposta dada à reportagem pelos funcionários da Escola Estadual Pereira Barreto, antigo colégio Escolas Reunidas da Lapa, que acaba de completar 100 anos. Justamente lá onde estão os livros de registros do início do século, em local úmido. Após insistência, funcionários apresentam o porão, onde há um cartaz: "Manter essa porta aberta, cheiro de mofo muito forte."É possível, no entanto, notar esforços da direção para organizar acervo, conseqüência da visita de pesquisadores da USP anteriormente. A diretora Angela Maria Freitas conta que há três meses começou o trabalho. "Um professor está fazendo um levantamento do que está aí para criar um site com a memória. O problema é que as escolas não tem funcionários nem capacitação para o trabalho."

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