Tensão com a base, crédito com a opinião pública

Cientistas políticos analisam últimas medidas de Dilma; rigor esvazia discurso das oposições

Daiene Cardoso / AGÊNCIA ESTADO e Lucas de Abreu Maia, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2011 | 00h00

A "faxina" promovida pela presidente Dilma Rousseff no Ministério dos Transportes pode criar problemas à governabilidade, mas é, também, uma forma de ela se credenciar diante da opinião pública. Se por um lado seu estilo pode incomodar os aliados, de outro ela esvazia a oposição ao agir de forma rápida, na avaliação de cientistas políticos ouvidos pelo Estado.

Na opinião do professor da PUC-Rio Ricardo Ismael, foi feito um cálculo político que mostrou a necessidade de interferir na pasta, mesmo diante do risco de o PR se afastar da base governista. "Com essa atitude, a Dilma esvaziou a oposição. O governo está se resguardando, caso ocorra uma CPI no Congresso", avaliou Ismael. Ele ressalta, no entanto, que esta é uma "operação de risco" e que o Planalto poderá enfrentar resistências no Congresso no segundo semestre.

Já Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), vê como improvável uma eventual retaliação no Congresso. "A base não pode se opor a uma ação que tem o intuito muito claro de combater a corrupção. Não vejo consequências muito negativas", diz. Mas, prossegue, "se a base é formada pelos políticos que dão origem a estas denúncias, não é uma boa base".

"Precedente". Para Wanderley Reis, Dilma criou, com a limpa nos transportes, um "precedente" que precisará seguir em novos escândalos. "Não é possível tomar ações drásticas neste momento para agir de maneira diferente no futuro."

Marco Antônio Teixeira, da FGV de São Paulo, acredita que a decisão de Dilma de levar em consideração a opinião pública foi uma reação à má avaliação de suas decisões na crise que derrubou o ex-ministro Antonio Palocci da Casa Civil. "Cada crise ensina um pouco mais", diz.

De acordo com o cientista político Rubens Figueiredo, após ser governado por Luiz Inácio Lula da Silva - com sua grande capacidade de liderança política e apoio da sociedade -, o País agora tem uma administradora que age de forma republicana. "Há muito tempo as denúncias não tinham consequências. Com Dilma, as coisas voltaram ao curso normal", elogiou. "Ela tem ao seu lado as instituições democráticas que veem com bons olhos essa ação (demissões)."

Para Carlos Melo, do Insper, a crise atual indica o fracasso do presidencialismo de coalizão, modelo em que se distribuem cargos entre os aliados e se entregam ministérios "de porteira fechada". "Ou a presidente parte para um rearranjo ou vai ficar administrando conflitos o tempo todo", adverte. Além disso, "o apoio da opinião pública pode blindá-la de alguma forma, mas ela precisa tomar cuidado porque a base pode se desgastar".

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.