Polícia Federal
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Tensão entre garimpeiros e indígenas aumenta na terra Yanomami, em Roraima

Na segunda-feira, houve troca de tiros entre grupos de índios e garimpeiros, deixando três mortos e outros cinco indígenas feridos. Insegurança prosseguiu com a presença de policiais federais e militares do Exército

João Renato Jácome, Especial para o Estadão

12 de maio de 2021 | 00h15

RIO BRANCO - A tensão entre indígenas e garimpeiros aumentou ainda mais nesta terça-feira, 11, na Terra Yanomami, no interior de Roraima. Na segunda-feira, 10, houve troca de tiros entre grupos de índios e garimpeiros, deixando três mortos e outros cinco indígenas feridos.

Na tarde de terça, a presença de uma equipe de policiais federais e militares do Exército na Comunidade Palimiú, acabou em tiroteio entre os garimpeiros e os agentes de segurança. A troca de tiros durou cerca de cinco minutos, e repetiu as cenas de temor e insegurança que pairam sobre a região.

As mortes foram relatadas ao Estadão pelo líder indígena e presidente do Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye'kuanna (Condisi-Y), Júnior Hekurari Yanomami. Segundo o representante da comunidade, vários indígenas foram feridos, um deles por um tiro de raspão que atingiu a cabeça. 

Ao menos quatro moradores da comunidade morreram em meio aos últimos conflitos. “Isso não pode acontecer. Precisamos de segurança, pois proteger a população indígena é dever do Estado. Eles simplesmente estão agindo assim, constantemente, e os indígenas não tem condições de controlar esse problema sozinhos”, relata o líder Yanomami.

Júnior também destacou que os conflitos se tornaram mais frequentes após o início do governo de Jair Bolsonaro, principalmente após as declarações públicas de incentivo à exploração de minérios em terras indígenas. O Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye'kuanna (Condisi-Y) estima que ao menos 25 mil garimpeiros tenham adentrado a comunidade para fazer a exploração ilegal.

“Na nossa contagem, são mais de 18 atentados, e isso causou a morte de três índios e de uma outra mulher, também índica Yanomami, que foi violentada até a morte por garimpeiros no ano passado. Antes do governo (de Jair Bolsonaro) havia (conflitos), mas o número de garimpeiros era menor, não tinha tanto risco como o que estamos correndo agora. A entrada era menor, a ameaça era uma ou duas, mas não morriam pessoas como agora”, complementa o presidente do Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye'kuanna (Condisi-Y), Júnior Hekurari Yanomami.

A Polícia Federal em Roraima não soube precisar, contudo, a quantidade de ocorrências registradas nos últimos anos pela Superintendência Regional em Roraima, mas afirmou que mantém rotineiramente as investigações dos casos que chegam ao conhecimento do órgão, tendo sido executadas várias operações para impedir o garimpo ilegal na região.

Apesar das mortes relatadas pelo líder Yanomami, a Polícia Federal diz que não foram encontrados corpos dentro da comunidade, e a alegação dos indígenas é de que os garimpeiros levaram embora, na tentativa de fugir do local sem deixar rastros. “Conforme se apurou, apenas um indígena foi atingido de raspão, sem nenhuma gravidade”, diz a nota da PF.

A Polícia Federal confirma que houve troca de tiros com garimpeiros na tarde desta terça-feira: “Quando a equipe de policiais federais estava prestes a embarcar de volta a Boa Vista, uma embarcação de garimpeiros passou no rio Uraricoera efetuando disparos de arma de fogo. A equipe se abrigou e respondeu a injusta agressão, sem, contudo haver registro de atingidos de nenhum dos lados”, explica.

O coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y), Rômulo Pinheiro, decidiu retirar do local todos os cinco profissionais da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) que atuam na comunidade. "Temos um pedido da equipe de saúde para serem retirados de lá, em razão de um possível conflito”, explicou o gestor da instituição.

Após a repercussão dos conflitos, o presidente da Cooperativa dos Garimpeiros de Roraima, Josias Licata, nega a participação dos profissionais no conflito com os indígenas. Licata afirma que grupos ligados às organizações criminosas estão acessando a terra indígena e praticando violência contra os índios da região.

“Nesse local, não existe nenhum garimpeiro. O garimpeiro não está aí, está dentro do mato. Muitos garimpeiros estão nos passando a situação. Está muito cedo para a gente poder afirmar o que tem acontecido. “A minha manifestação é para não apoiar a violência e esse tipo de conflito na área”, frisou o representante dos garimpeiros do estado roraimense.

Júnior Hekurari Yanomami, acredita que nos próximos dias, caso o governo federal não tome providências, poderá haver um “grande massacre” na região, com a morte de dezenas de moradores da comunidade indígena. 

“Eles foram lá para fazer um massacre, e vai acontecer novamente, porque não temos segurança em absolutamente nada. Não temos informações de praticamente nada. “Esses dois, três anos aumentou 80% o garimpo na terra indígena. O governo está incentivando e colocando em risco a vida dos Yanomamis. Acontece operação, mas mesmo durante ela, o movimento continua normal. Prenderam aviões? Prenderam, sim, mas tem que ter uma investigação muito séria, de inteligência, para conter essa situação”, completa.

Os Yanomami acreditam que os conflitos que voltaram a ocorrer têm a ver com a barreira sanitária instalada pela própria comunidade para evitar a propagação do coronavírus na terra indígena. Desde a instalação da barreira, os garimpeiros têm sido impedidos de acessar a comunidade, o que causou o aumento da tensão entre índios e brancos. Na semana passada, mais de 5 mil litros de óleo diesel, 200 corotes de gasolina, barcos e quadriciclos foram apreendidos.

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