Claudio Pinheiro/O Liberal
Claudio Pinheiro/O Liberal

Tentativa de fuga termina em tiroteio e deixa 21 mortos em presídio do PA

Grupo externo usou explosivos para tentar libertar colegas enquanto detentos atiravam contra agentes e faziam reféns

Felipe Cordeiro, Felipe Resk, O Estado de S. Paulo, e Roberta Paraense, especial para o Estado

10 Abril 2018 | 17h52
Atualizado 11 Abril 2018 | 00h00

BELÉM E SÃO PAULO - Ao menos 21 pessoas morreram em uma troca de tiros nesta terça-feira, 10, após presos tentarem fugir do Centro de Recuperação Penitenciário do Pará III (CRPP III), considerado de segurança máxima, em Santa Izabel do Pará, região metropolitana de Belém. No mês passado, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou relatório alertando sobre risco de fuga na unidade. Entre os problemas de segurança, o órgão apontou “facilidade de resgate com apoio externo”, áreas de “vulnerabilidade” apenas com alambrado e “suspeita da articulação de internos com outras casas penais”.

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Por volta das 14 horas, um grupo externo, armado de fuzis, carabinas, pistolas e revólveres, saiu a pé de um matagal e se aproximou da unidade - uma das nove que integra o Complexo Santa Izabel, onde estão os presos mais perigosos do Pará -, de acordo com as investigações. Os criminosos, então, usaram explosivos contra o muro da área do solário.

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Nessa hora, um grupo de detentos que estava nos Pavilhões C e D atirou contra agentes penitenciários e fez outros de refém. Eles tinham três armas de fogo. O carcereiro Guardiano Santana, de 57 anos, morreu e outros cinco foram feridos. Desses, quatro estão internados. Todos trabalhavam na área interna do CRPP III.

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Houve troca de tiros entre os criminosos e o Batalhão Penitenciário, responsável pela segurança do local. No confronto, 20 pessoas morreram. Segundo a Secretaria Estadual de Segurança Pública e Defesa Social (Segup), 15 mortos eram presos da unidade e outros 5 eram do grupo externo que participava da tentativa de fuga.

Para o secretário Luiz Fernandes, titular da pasta no Pará, a ação dentro e fora do presídio foi “orquestrada”. “Atacaram a unidade ao mesmo tempo”, disse. “No local, o nível de alerta é sempre alto porque já foi alvo de outros ataques. Talvez por isso a segurança tenha conseguido o revide.”

Após o tiroteio, a administração deu início à contagem e revista dos presos, além de verificação de danos sofridos pela unidade e início do trabalho de perícia. Às 20 horas, não havia informações de fuga. “Estão sendo feitas buscas na área externa porque ainda pode existir algum participante”, disse o secretário. Com o bando, foram apreendidos dois fuzis, três pistolas e dois revólveres, segundo a pasta. 

Ao Estado, Fernandes afirmou que, por enquanto, não havia informações de que o ataque estaria relacionado a algum grupo do crime organizado. “O Estado não faz propaganda para facção”, respondeu, ainda, ao ser questionado qual deles teria maior influência na unidade prisional. Também disse que, até o momento, não era possível afirmar se a ação para possibilitar a fuga tinha como objetivo resgatar algum preso específico.

Equipes da Polícia Civil do Pará foram deslocadas até a penitenciária. Entre elas, havia investigadores da Divisão de Homicídios e uma da Divisão de Repressão ao Crime Organizado (DRCO).

Risco de fuga

Relatório do CNJ publicado em 19 de março apontou uma série de problemas de segurança no CRPP III, destinado a presos do sexo masculino que já receberam condenação. Com 432 vagas, a penitenciária estava superlotada, abrigando, ao todo, 660 detentos - 52,7% a mais do que a capacidade, segundo o órgão.

“O Centro de Recuperação Penitenciária do Pará III - CRPP III, conforme relatado na última inspeção, apresenta pontos de extrema vulnerabilidade, o que tem ensejado recorrentes fugas em massa”, diz o relatório. Nele, também é mencionado uma tentativa de fuga no dia 23 de janeiro, durante o banho de sol dos presos.

Segundo o documento, a unidade apresentava “facilidade do resgate realizado com apoio externo, inclusive com foragidos”. “Situação absolutamente alarmante, insustentável e recorrente”, continua o texto, referente a janeiro. Entre as medidas, o CNJ pede a construção “urgente” de uma “muralha para isolamento da Casa Penal”, além de reforço na “segurança da área de visita, que não detém muralha, mas apenas um alambrado e concertina”. “Inaceitável para um presídio de alta segurança”, afirma. Também diz existir “suspeitas de articulação dos internos com outras casas penais, bem como de foragidos (...) que arremessam objetos ilícitos para dentro”.

Na última vistoria, o CNJ encontrou “armas de fogo ou instrumentos capazes de ofender a integridade física”, além de 49 aparelhos de comunicação ou acessórios. O secretário Luiz Fernandes diz desconhecer o relatório, mas afirma que contratou a construção de uma muralha em unidade do complexo.

Morte de PMs deflagra série de 13 execuções

Em apenas cinco horas, 13 pessoas foram executadas em sete bairros periféricos de Belém e da cidade de Ananindeua, na região metropolitana. A sequência de assassinatos, praticada por homens em motocicletas e fortemente armados, foi registrada após a morte de dois policiais militares. Até a manhã desta terça, ninguém havia sido preso pelos crimes.

A matança começou por volta das 15h30 da segunda-feira, depois da notícia da morte dos cabos da Polícia Militar Ivaldo Joaquim Nunes Silva, assassinado no bairro da Sacramenta, e Ernarni Rogerio Silva da Costa, executado no bairro 40 Horas, em Ananindeua. No total, 12 homens e uma mulher, com idade entre 18 e 30 anos, foram mortos, de acordo com a polícia.

Somente neste ano, 19 policiais foram assassinados no Pará. Em menos de quatro meses, esse número já passa da metade de homicídios de PM na comparação com os dados do ano passado, que apontam 35 assassinatos de militares, segundo informações da Associação de Cabos e Soldados da PM.

Dados do Sistema Integrado de Segurança Pública do Pará (Sisp) revelam que, nos três primeiros meses de 2018, foram registradas mais de mil mortes violentas, o que dá uma média de quase 13 por dia no Pará. A Secretaria de Estado de Segurança Publica (Segup) reconheceu os assassinatos e destacou que nove das vítimas tinham passagem pela polícia. 

Patrulhamento

Em coletiva à imprensa na manhã desta terça, o governo do Estado informou que a Segup instalou, ainda na tarde de segunda-feira, 9, um gabinete especial de situação com os comandos de policiamento civil e militar para reforçar o policiamento em Belém e na região metropolitana. Os assassinatos estão sendo apurados pela Polícia Civil, com reforço nas equipes da Delegacia de Homicídios e Contra Agentes Públicos (DHP).

Cronologia: execuções nas prisões

1º de janeiro

Nove presos foram assassinados e 14 ficaram feridos durante um confronto entre detentos do regime semiaberto no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, em Goiás. A Secretaria de Segurança Pública de Aparecida de Goiânia informou que o confronto aconteceu depois que detentos da ala C invadiram as alas A, B e D, dando início a um confronto. Os presos também incendiaram a unidade prisional e corpos ficaram carbonizados. No total, 77 presos fugiram.

29 de janeiro

Um ataque promovido por detentos da Cadeia Pública de Itapajé, no Ceará, terminou com dez mortos a tiros e facadas. Segundo familiares dos presos e agentes penitenciários, os mortos seriam da facção criminosa paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e teriam sido assassinados ainda em decorrência de uma chacina que matou 14 pessoas em Fortaleza.

26 de fevereiro

Dois presos que faziam parte do Primeiro Comando da Capital (PCC) foram mortos na Penitenciária Estadual Rogério Coutinho Madruga, no Complexo Prisional de Alcaçuz, na região metropolitana de Natal. Os corpos de Lázaro Luís de França Ferreira, de 34 anos, e Shakespeare Costa de França, de 24, estavam amarrados pelos pescoços com lençóis às grades de uma cela.

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