Terceira versão do programa de Dilma elimina propostas polêmicas

Sucessão. Comando de campanha da candidata petista tira do texto temas como controle da mídia ou taxação de grandes fortunas. E defende manutenção do 'tripé que está dando certo', com equilíbrio fiscal, controle da inflação e o câmbio flutuante

Vera Rosa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2010 | 00h00

No comitê. Dilma durante reunião com assessores de campanha: desidratação de programa de governo para evitar mais embaraços    

 

 

 

O comitê da campanha de Dilma Rousseff limou do programa de governo propostas radicais aprovadas pelo 4.º Congresso do PT, em fevereiro, como o controle social dos meios de comunicação, a taxação de grandes fortunas e a defesa de audiência prévia para reintegração de áreas invadidas por sem-terra.

A ordem do Palácio do Planalto foi desidratar a polêmica para não criar embaraços a Dilma no confronto com o candidato do PSDB à Presidência, José Serra, e, mais do que isso, não alimentar a imagem de que eventual vitória da petista representaria uma guinada à esquerda.

Sob o slogan "Para o Brasil seguir mudando" - que batiza a coligação formada por dez partidos -, a plataforma de Dilma dará ênfase apenas à continuidade do governo Lula. Disposta a retirar do texto qualquer vestígio de controvérsia, a equipe dilmista vai destacar, nos 13 compromissos do programa, que um novo governo comandado pelo PT preservará o equilíbrio fiscal, o controle da inflação e o câmbio flutuante.

"É o tripé que está dando certo e em time que está ganhando não se mexe", resumiu o presidente do PT, José Eduardo Dutra. "Para nós, a estabilidade é uma premissa. Ninguém precisa se assustar."

Cobrado por grupos do PT inquietos com a falta de novidade na plataforma de Dilma, o coordenador do programa de governo, Marco Aurélio Garcia, citou uma pichação que viu no México. "Chega de realizações, queremos promessas!", dizia a inscrição. Marco Aurélio fez o comentário, em tom bem-humorado, durante reunião com aliados, na segunda-feira.

A garantia de que nada mudará na seara econômica já havia sido dada pela própria Dilma quando foi aclamada candidata do PT, em fevereiro. Naquele encontro, porém, o partido radicalizou o programa e aprovou "diretrizes" que acabaram assustando o mercado.

Embora a coligação de Dilma só vá divulgar a carta-compromisso pouco antes da estreia do horário eleitoral na TV, no dia 17, na prática a estratégia é anunciar trechos do plano de governo em doses homeopáticas, para causar mais impacto.

Empenhado em mostrar que a ex-ministra da Casa Civil está preparada para enfrentar os desafios do País, às vésperas do debate com Serra - marcado para amanhã, na Rede Bandeirantes -, o comitê petista abriu ontem suas portas. Tudo foi planejado para exibir a candidata discutindo o programa de governo ao lado de integrantes do núcleo duro da campanha.

Dilma disse que sua plataforma dará ênfase à educação, com valorização dos professores e expansão do Programa Universidade para Todos (ProUni). Prometeu, ainda, incentivar o ensino técnico, criar escolas nos municípios com mais de 50 mil habitantes e romper com o regime de "progressão automática" para os alunos, mesmo quando eles não têm nota suficiente para passar de ano. Foi uma estocada na direção do governo de São Paulo.

"A questão que nos preocupa é a qualidade da educação", insistiu candidata do PT. A equipe de Dilma quer transformar a educação num dos principais temas para fazer contraponto com Serra sobre modelo de gestão. Não é à toa que a ex-ministra vive citando a greve de professores enfrentada por ele poucos dias antes de deixar o cargo, em 31 de março. "Não somos nós que recebemos professores com cachorros e policiais", provoca Dilma.

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