Terreno cobiçado cheira a pesticida

Em São Caetano, área disputada pelo mercado está contaminada; são 244 pontos com problemas no ABC

Eduardo Reina, O Estadao de S.Paulo

16 Agosto 2009 | 00h00

Uma área de cerca de 300 mil metros quadrados em São Caetano do Sul, cidade com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do País e com uma imensa procura imobiliária, é atualmente a mais cobiçada da região do ABC paulista. Está localizada ao lado da porta de entrada da região do ABC ao metrô, a futura Estação Tamanduateí da Linha 2-Verde, paralela à futura linha de Veículo Leve sobre Trilho (VLT) que ligará Tamanduateí a São Bernardo do Campo e vizinha da Avenida do Estado. Um negócio e tanto, ainda mais quando se leva em conta que o município tem apenas 12 km² de área e quase nenhum espaço ocioso para o mercado imobiliário. Mas esse mesmo terreno, que pertenceu à extinta Indústrias Químicas Matarazzo, está contaminado. E até aqui, inutilizado.A contaminação do local foi detectada na década de 1980. O conglomerado industrial fabricava soda cáustica, cloro, compostos de cloro, ácido sulfúrico, rayon, celulose e carbureto de cálcio, além de produzir agrotóxicos (hexaclorocicloexano e toxafeno). A desativação do complexo foi feita de forma gradativa, entre 1978 e 1987. Mesmo assim, ainda é possível sentir cheiro de pesticida no ar. A área está totalmente isolada com muros. Placas informam sobre o perigo do local contaminado. Os produtos químicos penetraram o solo e atingiram também o Córrego dos Meninos, que deságua no Rio Tamanduateí, mais à frente.O prefeito de São Caetano, José Auricchio Júnior, confirma que há interesse de várias empresas na área da Matarazzo. "O boom imobiliário e a excelente localização do terreno dão maior importância para o local. Mas a Cetesb sempre é senhora do respeito. Os parceiros (empresas interessadas) precisam fazer a sua parte (para a possível liberação do terreno)", diz, sem revelar quais empreendedoras querem construir na área.A Cetesb informou que a prefeitura de São Caetano ficou de apresentar uma proposta de intervenção para a área da Matarazzo para que fosse feita uma análise técnica. Num trecho de 18 mil m² do imenso terreno, a administração municipal também pretende construir um parque e fazer a reurbanização de área próxima da igreja do bairro Fundação.SANTO ANDRÉA região do ABC conta com 244 áreas contaminadas das 2.514 registradas em todo Estado pela Cetesb. Na vizinha Santo André, dois terrenos começam a passar por processo de desinstalação industrial e futura descontaminação para dar espaço a um novo empreendimento imobiliário de alto padrão. Trata-se de uma área na Avenida Industrial, no Bairro Jardim, uma das mais valorizadas do município, onde até a década de 1980 funcionaram as fábricas de fertilizantes IAP e Copas. Apesar de estarem fechadas há mais de 25 anos, ainda há fertilizante no local.A Construtora Goldfarb comprou os dois imóveis, onde vai erguer torres de apartamentos. O local é vizinho de uma estação da CPTM e de um terminal rodoviário, além de estar ao lado do Parque Celso Daniel.De acordo com a Cetesb, em 26 de outubro de 2006 foi dado parecer desfavorável à implementação de empreendimento habitacional nessa área. "Foram apresentados estudos de investigação ambiental da área, sendo que vêm sendo executadas medidas de recuperação, com a remoção de tanques, de resíduos de fertilizantes, tamponamento de poços de abastecimento (de água) e outras ações", diz a companhia.O Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André (Semasa) exige que seja respeitada legislação que proíbe a ocupação de margem de 30 metros de cada lado de um córrego que cruza o terreno. "Houve mudança do projeto por parte da construtora. Estão fazendo avaliações no local", explica Luciana Toma, assistente técnica de Licenciamento Ambiental do Departamento de Gestão Ambiental do Semasa. A Goldfarb informou que está sendo elaborado um relatório para determinar ou não a existência de passivo ambiental com base na qualidade geoquímica do solo. Os testes vão associar o material contaminante encontrado e suas respectivas concentrações com possíveis riscos. A construtora garante que seguirá tudo o que a Cetesb determinar.

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