Tese revela ''invenção'' da zona sul

Segundo geógrafa, termo não foi criado por lei, mas para diferenciar condição social de bairros ricos do Rio

Felipe Werneck, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Para a geógrafa Elizabeth Dezouzart Cardoso, a zona sul do Rio foi "inventada" em 1927. Ela acaba de defender sua tese de doutorado no programa de pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense. Chama-se "Segregação Socioespacial e Invenção da Zona Sul Carioca: 1920-1960". O termo não teve origem no urbanismo ou em leis de zoneamento da cidade, aponta Elizabeth. Apareceu pela primeira vez no jornal de bairro Beira-Mar, criado em Copacabana, que circulou até no exterior.

Em 23 de janeiro de 1927 foi publicada reportagem que se referia aos "bairros sul" e tinha como tema central problemas em favelas da região. Abordava a falta de saneamento das habitações, a proliferação de doenças e os planos da prefeitura para melhorar as condições de vida naqueles locais. Pouco depois, em 6 de fevereiro, texto sobre a futura abertura do Corte do Cantagalo citava a "expansão da zona sul, onde os terrenos estão se valorizando de forma incrível". Segundo a pesquisadora, o termo só surgiria num jornal de grande circulação, o Correio da Manhã, em 1940.

A geógrafa identifica uma necessidade de afirmação da condição social elevada dos bairros praianos. A zona sul já convivia com uma desigualdade que levava operários e empregados domésticos a morar em favelas, mas "passou a ser vista de forma primordialmente positiva, com uma imagem associada à beleza e à elegância". A popularização das praias de Copacabana, Ipanema e Leblon foi decisiva nessa valorização.

Elizabeth concentrou sua pesquisa em três periódicos: além do Beira-Mar e do Correio da Manhã, a revista O Cruzeiro. Nesta publicação, a primeira referência à zona sul foi encontrada em um conto de David Nasser publicado em 1943. "Devo explicar ao senhor editor a nossa profissão. Nossa, quer dizer, a minha e a de Bignight. Somos ladrões, "charmeurs" desempregados por falta de serviço, desde que acabaram os black-outs da zona norte e aumentou a vigilância na zona sul", escreveu o autor. Várias matérias fazem uma diferenciação da zona sul em relação às demais áreas da cidade, principalmente o subúrbio. Na revista, os termos "elegante/elegância" aparecem com maior constância para definir a região. Em seguida vêm "grã-fino", "aristocrático", "chic" e uma série de expressões como "fina flor carioca" e "elite da sociedade". Reportagem de 1948 cita as praias "limpas e policiadas, do Flamengo ao Leblon".

As palavras mais encontradas no Correio para definir a zona sul se referiam ao "status elevado" da região, apontada como local "rico", "fidalgo", "opulento", de "grã-finagem", "elegante", "invejável" e "próspero". Já as praias eram vistas como lugar "lindo", "belo", "encantador", "aprazível", bucólico" e "pitoresco". Na publicação, Copacabana recebeu o adjetivo de Grécia tropical. Também havia contradições. Matéria de 1936 classifica Ipanema e Leblon como "elegantes" e, ao mesmo tempo, considera-os "bem infelizes", por falta de infraestrutura. Já no Beira-Mar, por se tratar de um veículo criado especificamente para valorizar e defender os interesses daquela área, as palavras e expressões são mais abundantes - principalmente "status", "beleza", "sedução", "progresso" e "modernidade". Para os autores, o banho de mar era um "espetáculo maravilhoso" e as banhistas, "sereias", "frescas", "lindas", "sadias", "finas", "famosas" e "alegres", com "formas impecáveis" e um "sorriso malicioso". Já os nadadores eram "destemidos" que esbanjavam "saúde". O termo "aquém túneis" aparece várias vezes para definir a identidade da zona sul. Em Copacabana, "sítio da saúde", a vida era "sempre mais ativa".

A pesquisadora também verificou que as colunas "zona norte" e "zona sul" só surgiriam na seção de classificados do Correio em 1970. Em O Globo, isso ocorreu um pouco antes, em 1968. No Jornal do Brasil, em 1959. Até então, os classificados apresentavam uma coluna, Subúrbios, e os bairros das chamadas zonas sul e norte vinham em ordem alfabética, sem um título geral.

Para Elizabeth, o termo foi consagrado no cotidiano em 1959, com a música Balanço Zona Sul, de Roberto Menescal. Muitas músicas da bossa nova pintaram uma imagem da região associada à beleza, à calma, ao bem-estar, ao romantismo e à sensualidade. A geógrafa aponta que o tom de exaltação teve continuidade até a década seguinte, quando Copacabana sai de cena e Ipanema se torna protagonista.

A zona sul do Rio se estende entre os morros do Maciço da Carioca, as praias oceânicas e a entrada da Baía de Guanabara. É formada por 18 bairros, entre os quais se incluem também Gávea, Botafogo, Urca e Rocinha.

A região abriga a maior parte das classes ricas da cidade e apresenta alto padrão de infraestrutura e de serviços. É a área de maior circulação de turistas, dos grandes hotéis, restaurantes, cinemas e boates. Além das praias, concentra atrações como Pão de Açúcar e Corcovado. A cidade do Rio é conhecida pela violência, mas apenas 2,6% dos homicídios desde 2007 ocorreram na zona sul, segundo dados oficiais.

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