Sergio Dutti/AE
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Tesoureiro de Dilma arrecada R$ 2,8 milhões

Eleito deputado com doações de empreiteiras, Filippi acha normal ter ajuda de empresas que buscam 'apoio político'

Fausto Macedo e Bruno Tavares, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2010 | 00h00

ENTREVISTA

José de Filippi Júnior, deputado federal e ex-prefeito de Diadema

José de Filippi Júnior, tesoureiro da campanha da presidente eleita Dilma Rousseff, recebeu R$ 2,81 milhões em doações e elegeu-se deputado federal pelo PT com 149.525 votos. Parte dos recursos que captou na corrida por uma cadeira na Câmara, Filippi recebeu de empreiteiras, algumas das quais tocam obras públicas de grande porte. Da OAS, por exemplo, o petista recebeu dois repasses que somaram R$ 200 mil, o primeiro no valor de R$ 100 mil em 11 de agosto, o segundo em 15 de setembro, do mesmo valor.

Os dados sobre a campanha constam da prestação de contas que Filippi apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ex-prefeito de Diadema, onde é imbatível no voto - superou José Serra (PSDB) no primeiro turno -, Filippi teve como maior doador o próprio partido. Sua arrecadação foi superior, por exemplo, à de Gabriel Chalita (PSB), segundo deputado mais votado, que captou R$ 2,3 milhões.

Ao Estado, Filippi garantiu que até fins de novembro apresentará à Justiça a prestação de contas da presidente eleita. "Ficamos endividados com fornecedores, vamos precisar de uma receita extraordinária."

Por que empreiteiras doaram para o tesoureiro de Dilma?

As empresas buscam apoio político, respaldo. Não quer dizer algo ilícito. Proponho há anos alterações na legislação de financiamento de campanha. Deveria ter limite, para a indústria e para empreiteiras. Cada setor da sociedade se organiza de uma forma e vê na eleição de um político um possível representante com quem vai buscar a defesa de seus interesses. Não quer dizer combinação, acordo com o parlamentar. Nos Estados Unidos o lobby é legítimo. Aqui nós usamos o termo de forma pejorativa.

Que tipo de contato o senhor mantém com seus doadores?

Nossa equipe visitou pequenas indústrias do ABC, empresários que conhecem a gente há 10, 15 anos, que contribuíram com minhas campanhas anteriores. Eu liguei para alguns deles para agradecer. A lista dos 30 maiores doadores da Dilma não tem correlação com as doações que recebi. Me virei, fui buscar doações de antigos conhecidos. Fizemos jantar, arrecadamos perto de R$ 200 mil. Fui prefeito de Diadema por 12 anos.

Quem recebe doação de construtora fica endividado com ela?

Não. É uma referência. As construtoras, principalmente, estão olhando com muito otimismo e esperança o momento do País, a quantidade enorme de investimentos em infraestrutura. Algumas empresas contribuem de mais, outras de menos.

Como o sr. abordou doadores para a campanha de Dilma?

Mandei mais de 8 mil cartas, mas não sugeri valores. Não pressionei ninguém. O sistema precisa ser democratizado para evitar diferenças tão expressivas, uma doa R$ 100 mil, a outra R$ 10 mil. Se tivermos 10 mil empresas doando R$ 10 mil cada dá R$ 100 milhões. Razoável. É quase o que gastamos no primeiro turno.

Como o sr. dividiu sua campanha e a tarefa de tesoureiro?

Eu não fazia pedido para mim. Seria um constrangimento para mim e para o próprio doador. O partido me propiciou essa condição operacional, para focar nas finanças da Dilma. Quase sem fazer campanha tive mais votos que o Serra em Diadema.

Que critérios as empresas impunham para doar?

Cada uma tem seu critério. Normalmente são contemplados os dois com mais chances. Eu ia numa empresa e me diziam: vou dar 500 para vocês, vou dar 500 para o Serra. O Brasil deveria adotar um sistema misto e híbrido de financiamento de campanha. Temos que aperfeiçoar. Começar a receita da campanha pelo menos seis meses antes do registro das candidaturas, sob controle do TSE. Com o início da campanha estaria ajustado, a arrecadação num período anterior ao gasto. No Brasil começa depois. É como se eu fosse fazer feira sem dinheiro no bolso.

Quanto custou a campanha da presidente eleita?

No primeiro turno arrecadamos perto de R$ 100 milhões e gastamos R$ 95 milhões. No segundo nosso limite era de R$ 157 milhões, pedimos R$ 191 milhões. O TSE autorizou. Foram uns R$ 15 milhões para o PMDB. Ficamos com R$ 176 milhões. Era o limite. Não sei dizer quanto gastamos no segundo, não chegou a isso.

Sobraram dívidas?

Com fornecedor. Não tivemos receita suficiente para dar conta das despesas gráficas, pagamentos de agências, pesquisas e produção de TV e rádio. Vamos ter que correr atrás de receita extraordinária.

MAIORES DOADORES

Diretório Nacional do PT

R$ 1.292.500,00

Construtora OAS

R$ 200 mil

UTC Engenharia

R$ 150 mil

IBQ Indústria Química

R$ 100 mil

Companhia Brasileira Metalurgia e Mineração

R$ 100 mil

Campanha de Marta Suplicy

R$ 50.496,62

Fratelli Vitta Bebidas

R$ 50 mil

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