Teste detectou urânio em 2013 em bebedouro

Estatal que explora única jazida do mineral na América Latina diz que contaminação não está ligada a sua atividade

Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2015 | 03h00

RIO - Um bebedouro de animais no distrito de Maniaçu, em Caetité (BA), apresentava já em 2013 indícios de urânio natural (U-nat) acima das medições históricas feitas havia anos no local pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB). A descoberta aconteceu antes dos testes que, no fim de 2014, encontraram sinais de U-nat na água de um poço no município vizinho de Lagoa Real, como revelou o Estado com exclusividade no dia 22. A INB, porém, alega que os valores dos dois casos não são associados à atividade que comanda. 

A empresa explora ali, há 15 anos, a única jazida do mineral em atividade na América Latina, e alimenta as Usinas de Angra 1 e Angra 2, no Rio. A medição acima da média foi obtida em um dos pontos do sistema de monitoramento nuclear mantido pela estatal, o LR001. Foi feita no terceiro trimestre de 2013. As informações sobre as medições acima do normal ali constam de relatório elaborado em resposta a pedido da reportagem de 2015, com base na Lei de Acesso à Informação. 

O episódio de Lagoa Real foi diferente do de Maniaçu. Sua investigação começou a pedido de moradores em uma propriedade privada, fora da área monitorada pela INB. Já o sistema de monitoramento da estatal faz medições periódicas em pontos determinados. É mantido por causa dos riscos ao meio ambiente e aos seres humanos representado pela radiação. Mede a presença de elementos radioativos como urânio natural (U-nat), rádio 226 (Ra 226), radônio, chumbo 210 (Pb 210) nas águas subterrâneas e pluviais, no ar, em sedimentos, nos alimentos. A contaminação radioativa pode causar mutações genéticas e doenças graves. 

“A concentração de U-nat, na fração solúvel da amostra coletada no terceiro quadrimestre de 2013 (5,4E-01 Bq/L) está acima dos valores históricos”, afirma o documento fornecido pela INB. “O máximo encontrado até então, nessa fração, tinha sido de 5,OE-01 Bq/L no segundo quadrimestre de 2012.”

O texto aponta ainda que o ponto LR001, onde foi constatada a contaminação, “representa, atualmente, um pequeno tanque que foi feito dentro da antiga lagoa”. Ali, durante os períodos de grande estiagem, a água chega quase a secar, afirma o documento. “Esse tanque recebe água somente de chuva e drenagens pluviais e é usado somente para dessedentação de animais (ou seja, é destinado a dar de beber a criações da região). Esse ponto pertence a uma bacia hidrográfica que não está relacionada a possíveis contribuições da URA”, diz o texto.

Normal. A INB afirma que outras medições envolvendo elementos radioativos tiveram resultados normais ali. “As concentrações de atividade de U-nat e Pb-210 (chumbo 210) obtidas nas amostras coletadas em 2013 no ponto LR001, sedimento, estão dentro da faixa dos valores históricos para as amostras de sedimento.”

Também em 2013 o mesmo ponto LR001, segundo a INB, registrou medições de rádio em aerossol (Ra-226 no ar) acima dos valores históricos do local, mas dentro da variação em outros pontos. Por isso, não haveria anormalidade, nem perigo. “As concentrações de atividade dos radionuclídeos U-nat e Pb-210 encontradas no ponto LR001 em 2013 estão de acordo com os valores históricos. A concentração de Ra-226 encontrada na amostra de 2013 está acima dos valores históricos do ponto, mas dentro da faixa das concentrações encontradas em outros pontos”, diz o texto.

A estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) afirma que não há relação entre as atividades da Unidade de Concentrado de Urânio (URA) INB Caetité e a descoberta de concentrações do mineral acima das medições históricas em água no ponto LR001, em 2013. Em linha reta, o local fica a 11 quilômetros da URA. “Os valores de urânio encontrados nessas águas são resultantes das características naturais da região”, afirma, em nota ao Estado.

Segundo a empresa, os valores encontrados pelo monitoramento não são indício de contaminação do tanque. Por isso, não haveria risco no fato de animais beberem água ali. A INB diz ainda que as medições no LR 001 não indicam a necessidade de isolar o local.

A empresa ressalta também que, como não houve contaminação radiológica, mas oscilações naturais, os eventos pesquisados não eram “reportáveis às autoridades competentes”. “Contudo, como são resultados obtidos pelo PMRA, foram encaminhados aos órgãos licenciadores no relatório anual do programa”, explica.

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