ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

TikTok ajuda a esclarecer transtornos

Plataforma passa a ser canal de conteúdo sobre experiências pessoais que conscientizam usuários sobre algumas deficiências ocultas

Natália Santos, especial para o Estadão

23 de agosto de 2021 | 05h00

O TikTok, que inicialmente era conhecido pelas dancinhas e desafios, ganhou nova função: amplificar vozes de jovens com deficiência ocultas e transtornos. Em meio a pandemia de covid-19, elas passaram a divulgar conteúdo com o intuito de desmistificar estereótipos e conscientizar a sociedade sobre diferenças. A base para essa transformação utiliza um combo já conhecido: ciência e experiência do cotidiano.

Bianca Bittencourt, de 21 anos, é uma dessas vozes. A graduanda de designer de moda foi clinicamente diagnosticada com autismo durante a pandemia. Desde a infância, ela mostrava alguns sinais do transtorno, mas nunca obteve um diagnóstico completo. Já adulta, começou a considerar a possibilidade de que precisasse de ajuda médica após se identificar com vídeos sobre autismo. "Descobrir isso sobre mim é muito libertador", conta.

O que motivou Bianca a falar sobre autismo nas redes sociais foi tentar oferecer esse sentimento libertador a outras pessoas. "Eu decidi fazer um vídeo sobre autismo porque foram eles que me fizeram ir atrás do meu próprio diagnóstico", disse. "Para produzir, eu uso a minha experiência pessoal e artigos acadêmicos. Por isso que, às vezes, acabo demorando um tempo." 

Há três anos, quando começou a produzir conteúdo para internet, Yummii, de 25 anos, host do Sistema Orquestra, traduzia artigos acadêmicos do inglês para o português com o intuito de educar as pessoas sobre Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI). Pessoas com esse transtorno são caracterizadas pela presença de mais de uma identidade dentro do mesmo corpo e se identificam como "sistema", por causa dessa polifragmentação.

Para enfatizar o que diz, Yummii não se restringe apenas à sua experiência. O perfil realiza vídeos em colaborações com outras pessoas que possuem TDI, como uma forma de diversificar as narrativas. "A melhor forma que eu tenho para combater os estereótipos é mostrar sistemas que possuem uma vida funcional, que realmente conseguem viver, além de utilizar a ciência como fonte", disse.

O processo de conscientização, entretanto, não tem sido fácil. Em inúmeros momentos, Bianca lidou com comentários que estereotipam o transtorno. "As pessoas conhecem um autista e querem que todos sejam iguais, não funciona assim. É a mesma coisa que eu conhecer a minha mãe e achar que todas as mães têm que ser iguais à minha", explica. 

A dificuldade se intensifica com a viralização de informações falsas na plataforma. Yummii conta que, para conseguir maior visibilidade, algumas contas propagam inverdades sobre o TDI. "Uma pessoa falava que era super comum ter alters (identidades) com tendências violentas e assassinas, sendo que não é. Isso é um estereótipo forte sobre TDI, que nós lutamos para mudar", disse.

Instantâneo

Camille Guazzelli, de 18 anos, dormiu e acordou no dia seguinte com 10 mil seguidores após a publicação do primeiro vídeo falando sobre Síndrome de Tourette, distúrbio do sistema nervoso que envolve movimentos repetitivos, vocais ou motores. "As pessoas deixaram dúvidas nos comentários e eu respondia. Assim, as ideias para novos vídeos iam se formando." 

A estudante recebeu o diagnóstico durante a pandemia, quando os espasmos se intensificaram por causa do estresse. Com a sensação de ter algo e não compartilhar, Camille começou a falar da sua condição na internet. "Eu tive a ideia de utilizar o TikTok como um meio de expressar aquele sentimento e também porque eu não tinha coragem ainda de contar para os meus amigos o que eu estava passando. Eu sentia muita vergonha", disse. Com medo de não ser aceita e ter a doença desacreditada, a jovem regravava os vídeos sempre que tinha muitos espasmos. 

@niishiimiya

DIFERENÇA DOS APARELHOS AUDITIVOS EM UM MINUTO ##surdez ##humor ##conhecimento ##fy ♬ som original - malu paris

A atenção imediata na rede também faz parte da história de Maria Luisa Paris, 15 anos, que utiliza a plataforma para falar sobre a sua surdez. "Eu gosto de fazer um humor que faça refletir. Você ri, depois, para e pensa: 'Realmente! Eu nunca parei para pensar sobre isso antes'", conta. Malu perdeu a audição aos 5 anos, consequência do alargamento da cóclea, característica da Síndrome do Aqueduto Vestibular Alargado (SAVA). Para Cristiane Paris, mãe de Malu, ver o trabalho de conscientização da filha na internet resolve um medo antigo: o da filha não se encontrar dentro da deficiência. "O mais interessante é que ela fala para os ouvintes. Ela explica coisas que nem eu sabia", disse. 

Impacto

A psicóloga clínica especialista em adolescente Andressa Cristina Guedes explica que essa fase da vida é o momento em que o indivíduo está buscando ser inserido em grupo e alcançar uma noção de pertencimento. Nesse sentido, ao compartilhar conteúdos sobre suas condições na internet e ter um engajamento positivo, esses jovens passam a se sentir pertencentes, gerando também um reconhecimento tanto da sociedade quanto de si mesmo a partir das suas diferenças. "Esses jovens passam a ser reconhecidos pelo meio, ampliam o ambiente em que estão inseridos e contribuem para que outras pessoas, nas mesmas condições ou condições adversas, se identifiquem", disse.

@fashion.fairytale

Resposta a @rinxtz Um pouco sobre a questão do diagnostico ##autistiktok ##autismo ##asd ♬ som original - Bianca

Esse processo de identificação fez com que Bianca recebesse mensagens de jovens autistas que se sentiram representados. "Poder compartilhar o meu conteúdo sobre autismo é como se elas conseguissem falar sobre porque nós temos dificuldade de comunicação, principalmente quando somos mais novos", disse.

A conscientização sobre os temas também tem resultado em ações práticas na própria plataforma em favor da acessibilidade. Malu passou a ver pessoas no TikTok engajadas em ensinar a legendar os vídeos, por exemplo. "Mesmo que usemos aparelho, a audição não é só sobre ouvir. A audição é sobre compreender e identificar. Eu entendo que você fala, mas eu preciso ainda da leitura labial e preciso de um apoio para poder te entender", explica.

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