''Tinha conta na boca e na cantina''

Garoto de 14 anos queria se tornar dentista; hoje, luta contra a cocaína

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

31 de março de 2009 | 00h00

Dentista era o que ele gostaria de responder quando perguntassem qual era seu futuro. Já havia trabalhado em muitos consultórios fazendo próteses e na escola não era tão ruim assim. Então era só seguir firme, trabalhando e estudando. Um dia alguém falou que a cocaína "era o melhor jeito de aguentar o peso do trampo e do estudo". O sonho virou pó. Trabalhar passou a ter um único objetivo: pagar o cara da boca que, depois de vender o primeiro papelote ao menino de 14 anos, já abriu uma conta para ele, em sinal de confiança. Era cheirar e pagar dívida. "Tinha conta na boca do mesmo jeito que na cantina da escola."Rafael (nome fictício) ficou violento com a mãe e a irmã. Resolveu pedir ajuda aos 17 anos e conseguiu chegar ao Jovem Samaritano, clínica que foi idealizada para receber jovens antes que eles deixassem de ser componentes apenas da turma dos dependentes e entrassem para o grupo de infratores. Lá, a droga é tratada apenas com o olhar da saúde e não o da segurança pública. Não há muros ou grades e fica quem quer. Se brigar, roubar ou fugir, não é mais lá que o tratamento será oferecido.Das 30 vagas, apenas 6 estão em uso. "Ainda somos inovadores, os primeiros do Brasil com este conceito", diz Jacqueline Satriani, coordenadora-geral da clínica - mantida pelo Hospital Samaritano, em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde. "Estamos preparando a nossa primeira alta para os próximos dias e esperamos ter resultados que endossem que o trabalho está no caminho certo." A clínica foi preparada para os meninos passarem, no máximo, três meses. Os horários são regrados, entre atividades e grupos de terapia.Mas as histórias ali são iguais. Logo após a primeira tragada no cigarro, que eles contam ter sido mais ou menos aos 12 anos, já foram incentivados a cheirar a droga que prometia, ao mesmo tempo, sucesso com o grupo e "barato" imediato.Trata-se de uma vantagem dupla conquistada por qualquer um deles, não importa se pobre, rico, órfão ou com família. Era perder o medo e conquistar respeito. "Para o adolescente, o poder de sedução do tráfico é o mesmo, não importa a classe social. Ainda mais para uma parcela tão carente de referenciais como eles são. Admirar o traficante é fácil", lamenta Jacqueline.''FOI A GUERRA DO VIETNÃ''Rafa encontrou seus iguais lá. Juntamente com Pedro, de 16 anos, transformou em "rap" o que a cocaína faz com suas vidas. "Foi a guerra do Vietnã o que vivemos." Mas falam com convicção de que não voltarão a guerrear dessa forma. A luta agora é outra.

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