'Tinha gente atirando de um lado e de outro', diz filho de agente morto no Pará

Guardiano Santana morreu durante tentativa de fuga no Centro de Recuperação Penitenciária em Santa Izabel, Grande Belém. Família lamenta

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 07h00
Atualizado 14 Abril 2018 | 18h43

SÃO PAULO - Apesar de contar com uma cabeleira preta e exibir um porte relativamente atlético para a idade, o agente penitenciário Guardiano Santana, de 57 anos, era  chamado por colegas de trabalho de “Velho”. A razão do apelido, na verdade, vinha da experiência no serviço. Foram dez anos no Centro de Recuperação Penitenciário do Pará III (CRPP III), na Grande Belém, onde trabalhava desarmado e sem colete à prova de balas, antes de ser vítima de quatro tiros em uma tentativa de fuga em massa. O ataque aconteceu na  terça-feira, 10, e deixou outros 21 mortos.

Segundo foi relatado a familiares, o agente Santana estava na “gaiola”, espaço entre a área do banho de sol dos presos e as celas, na hora que tudo começou. Eram por volta das 14 horas. Do lado de fora da unidade, que fica às margens da BR-316, um grupo saiu de um matagal e usou explosivos para abrir caminho aos detentos. Simultaneamente, presos,  com pelo menos três armas de fogo, fizeram carcereiros de refém. Foi o início do confronto entre o Batalhão Penitenciário, braço da PM responsável pela segurança no presídio, e criminosos.

“Ele ficou preso neste corredor. Tinha gente atirando de um lado e de outro”, conta um filho de Santana, que preferiu não se identificar. O “Velho” chegou a ser socorrido a uma unidade de saúde da cidade de Castanhal. Lá, familiares foram avisados que ele  não havia resistido aos ferimentos.

No reconhecimento do corpo, os parentes perceberam quatro perfurações: no peito, próximo à clavícula; no cotovelo, no pescoço e na nuca. “Levou tiro pela frente e pelas costas”, diz o filho. “Não temos como confirmar de onde vieram. Ele pode ter sido alvejado tanto pelos policiais quanto pelos detentos que estavam lá.”

No tiroteio, morreriam ainda 16 presos e outras cinco pessoas que participavam do grupo externo. Após a identificação dos corpos, foi constatado que, na verdade, o grupo externo era composto por presos de uma colônia agrícola, de regime semi-aberto, vizinha à unidade de segurança máxima. 

Apesar de ser considerada de “segurança máxima”, a unidade estava superlotada – 660 presos para 432 vagas, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) –, tinha histórico de tentativas de fuga e problemas de infraestrutura, como ausência de muralha em parte da cadeia. Para o filho, tratava-se de uma “tragédia anunciada”. “Nós estamos com muita dor da perda, mas a gente sabe que, se não fosse com ele, teria acontecido com outra pessoa.”

Rotina. Com escala de 12 horas de trabalho por 36 de folga, Guardiano levantava às 5 horas para esperar o transporte que o levaria, junto a outro agentes penitenciários, de casa, em Belém, para Santa Izabel do Pará, onde o Complexo Prisional de Santa Izabel. Ele é formado por nove unidades, entre elas o CRPP III.

“Tinha um padrão de segurança máxima, conforme penitenciárias dos Estados Unidos, com portões eletrônicos, câmeras de segurança”, diz Andrey Tito, secretário-geral do Sindicato dos Servidores Públicos Civis  (Sepub-PA). “Mas depois de várias e várias rebeliões, hoje em dia, a parte tecnológica foi perdida.”

Segundo o Sepub, a unidade prisional é destinada à “nata da criminalidade”, com assaltantes de bancos, grandes traficantes e matadores que trabalham para facções. “Só tem presos reincidentes e de alta periculosidade”, diz Tito. A última tentativa de fuga havia sido registrada em 23 de janeiro, durante o banho de sol.

A falta de segurança no CRPP III foi alvo de queixas do CNJ, após inspeção feita em fevereiro. Segundo funcionários, um dos principais problemas é a comunicação do presídio com uma colônia agrícola vizinha, onde ficam presos do regime semi-aberto. Além de esconder armamentos na mata, os detentos ajudariam a municiar o presídio com armas, celulares e outros objetos proibidos. “É muito fácil jogar qualquer objeto por cima do muro”, comenta uma fonte. “Semanalmente os agentes recolhem e fazem relatório de facas, celular, tudo que não passa e cai do lado de fora.” 

Em casa, Santana evitava falar do trabalho. “Ele praticamente nos proibia de dizer que era agente penitenciário, até para nos preservar, por questão de segurança”, diz o filho. Nos últimos dias, não tinha feito qualquer queixa à família, nem relatado possíveis ameaças ou riscos de motim no presídio. “Ele nos passava bastante tranquilidade. Era característico dele. Ser tranquilo no trato e resolver as coisas com muito diálogo.”

Santana estava no segundo casamento e deixou cinco filhos. O mais velho tem 32 anos; o mais novo, 3. “Era um pais superatencioso, brincalhão, divertido, que agregava muita gente ao redor”, conta. “Aqui, para o povo nortista, nós temos muito chamego  uns com os outros. Nossas festas de família sempre são com muita gente e muitos amigos.” “O que nos incomoda hoje é que não temos nenhum retorno oficial. A gente não sabe como aconteceu ou quais foram os motivos”, diz o filho. “Tudo ‘está sob investigação’, mas a gente teme que essa investigação seja eterna.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.