Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Tiro esportivo também atrai interessados em transportar armas, diz dono de clube

Entre equipamentos emoldurados na parede e cartazes com imagens de alvo, recepção do local tem poltronas de pallets, área para churrasqueir e até brinquedos

Felipe Resk e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2019 | 18h27

Não fossem as armas emolduradas na parede, entre elas uma AK-47, e os cartazes com imagens de alvos ou de bandidos fazendo mulheres de reféns, a recepção da 1911 Shooting Club, em Santana, zona norte paulistana, poderia muito bem pertencer a um café descolado da Vila Madalena. 

Com poltronas de pallets, área para churrasqueira e até brinquedos e uma coleção de gibis da Turma da Mônica para crianças, o local é uma espécie de clube de tiro “kids friendly”. “Queria um lugar onde meus filhos pudessem ir”, disse o fundador Leonardo Melo. “É um conceito família.”

Os stands de tiro ficam no subsolo, sob supervisão de instrutores. Segundo os responsáveis nunca foi registrado acidente ou conflito entre os frequentadores. Inaugurado em 2016, o clube tem visto a lista de sócios crescer desde então: hoje, chega a cerca de 1,5 mil inscritos, entre eles empresários, médicos e vigilantes.

Melo admite que parte da demanda, porém, seria de pessoas mais interessadas em poder transportar uma arma, e não em praticar o esporte - algo que estaria fora da alçada do clube. Nas palavras dele, seria o “jeitinho brasileiro”.

“Uns 10% a 20% são pseudo-atiradores desportivos, pois só cumprem os requisitos legais, como pro forma, para manter o registro e consequentemente ter arma”, diz. “Seria hipócrita se eu falasse que não existe. É uma minoria, mas a gente tem visto essa minoria reverter para o tiro desportivo. Depois de uns dois, três meses, metade desses 20% passa a ser praticante.”

Segundo ele, o clube não teria meios para negar filiação. “Não temos como reprimir, não temos direito. Se o cara cumpriu os requisitos, somos obrigados a mandar a documentação para o Exército”, disse. “Mas por que o cara está fazendo isso? É má pessoa? Não, ele está sentindo que a segurança dele está fragilizada e que o poder público não consegue assegurar.”

A descrição se encaixa no que estava sentindo a empresária Sandra Maria do Nascimento, de 43 anos, quando há dois anos procurou o Exército para virar atiradora esportiva. “A gente vê a violência da forma que está... Meu interesse era em relação à minha segurança também, em poder ter a arma na minha casa”, conta. Segundo ela, a licença foi obtida em cerca de 90 dias. Os treinos obrigatórios ajudaram no manejo com o equipamento, diz, e ela costuma ir ao clube de oito a dez vezes por ano.

Em alta. Instrutor de tiro há 16 anos, o investigador da Polícia Civil Marlon Rocha conta que, com a vitória de Bolsonaro, o assunto de armas de fogo ganhou mais atenção. “Desde sempre apareceram curiosos, mas a eleição abriu um pouco o tema.”

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