Tiroteio no morro do Vidigal deixa dois mortos e dois feridos

A disputa de traficantes pelo controle do morro do Vidigal, na zona sul do Rio, deixou mais um rastro de violência na madrugada de domingo: dois motoqueiros assassinados e outros dois trabalhadores feridos com estilhaços de bala. Segundo moradores, eles foram atingidos por traficantes rivais, que invadiram a favela ao fim de uma festa junina. A Polícia Militar e o Batalhão de Operações Especiais (Bope), que fizeram incursões na comunidade durante todo o dia, investigam ainda a possibilidade de os crimes terem ocorrido durante uma briga entre bandidos da mesma facção que hoje controla o tráfico de drogas na região.De acordo com moradores que pediram para não serem identificados, a invasão ocorreu por volta das 3h, quando cerca de 20 homens armados desceram de duas vans. "A festa tinha terminado e todo mundo estava indo pra casa. Estava conversando com meu namorado e aí começaram a dar tiros. Corri, quebrei minha sandália e quase quebrei o pé. Esperei acalmar e desci sozinha. Só sei que a bala comeu", relatou a balconista Diana Macedo da Silva, de 17 anos. Atingida no braço e na nádega esquerda, ela retornou à favela após ser medicada no Hospital Miguel Couto, no Leblon. "Vi a morte de perto. Não vou mais sair de casa à noite".Tio de Hélder Gonçalo Ferreira, de 18 anos, que morreu baleado quando ia deixar a namorada em casa, Marcelo Costa foi detido por policiais do Bope após descer o Vidigal de carro, em alta velocidade, e bater em um ônibus, por volta das 11h. "Estou com pressa. Vim pegar as roupas dele para o enterro", justificou, sem querer falar mais sobre o caso. O pai do jovem estava inconformado. "Meu filho não era um vagabundo. Era um trabalhador. Sou policial, mas agora vou deserdar", disse, negando-se a dar o nome e o local onde trabalha. Marcos Vinícius Feira de Souza, de 24 anos, que morreu baleado, também era motoqueiro, assim como Bruno Souza da Silva, de 21 anos, atingido de raspão na perna esquerda. Moradores contaram ainda que o traficante Júlio Lira da Silva, o Buiú, foi quem comandou a ação. Um deles mostrou um cartaz com a foto do traficante, que estaria espalhado pela comunidade. Além de anunciar uma recompensa de R$ 25 mil, dá um telefone para contato, que é do Disque Denúncia. Desde 2004, os moradores do Vidigal vem sofrendo com a briga entre traficantes. Na ocasião, o confronto era com rivais da vizinha Rocinha, que tentavam, e conseguiram, tomar o comando do tráfico de drogas. A invasão de hoje foi comandada pelos antigos líderes do morro. "A bandeira (facção) pra nós não importa. O que queremos é a paz", afirmou um morador, explicando que o grupo que domina o morro hoje é menos violento. Até às 14 horas, o carro blindado do Bope havia feito quatro incursões no Vidigal. Porém, segundo o comandante da corporação, Mário Sérgio de Brito Duarte, nada além de uma camisa com manchas vermelhas foi encontrada durante a operação. "Fizemos três horas de busca e não achamos nada. Sequer um só estojo de bala. Pode ser que eles tenham usado a estratégia de recolhê-los, mas acho pouco provável. Se houvesse guerra, no mínimo, haveria estojos vazios no chão. Não há guerra sem vestígios", disse, informando que a polícia permaneceria controlando a área.

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