Marco Antônio Carvalho/Estadão
Marco Antônio Carvalho/Estadão

Depoimento: “Todo dia 1º, fico muito transtornada”

Mãe de preso morto no Compaj relembra dia do massacre e conta sobre a rotina um ano após o caso

Marco Antônio Carvalho, Enviado especial

29 de dezembro de 2017 | 22h00

MANAUS - Valdernilce perdeu o filho Kayro, de 23 anos, no massacre do Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus. Ao Estado, ela relembra o dia da chacina, as lembranças do filho e a rotina um ano após a morte do jovem. 

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Depoimento

Valdernilce Nascimento da Silva, de 46 anos, meio oficial de cozinha, mãe de Kayro Silva de Souza, de 23 anos, morto no Compaj"

"Estive no Compaj no dia 31 de dezembro. Ele havia engravidado uma menina e queria conhecer o filho. Me desesperei quando o menino começou a chorar, cheguei até a pedir para a esposa de um amigo dele amamentá-lo, mas ele não se contentou. Acabei saindo de lá, dizendo que voltaria, mas logo o guarda me avisou que quem saísse naquele horário não entraria mais para a pernoite, que começava às 16h. Mandei mensagem no celular dizendo que não ia dá para voltar e voltei para casa.

Olha, o Kayro era um menino muito bom, por muito tempo sua rotina era do trabalho, ele trabalhava como bombeiro hidráulico, para a igreja. Sempre morou com o pai, e quando pediu para viver comigo, disse que isso só aconteceria se ele terminasse os estudos, o que ele fez. Tinha uma letra bonita, só você vendo, os meninos lá dentro diziam que era uma letra mil grau e acho que foi isso que fez com que ele fosse o responsável por escrever aquela carta que apareceu no Jornal Nacional depois do massacre. A carta falava sobre as ameaças que eles estavam recebendo e pedia providências da diretoria. Numa visita, me disse que os manos tinham ditado e ele tinha escrito porque a situação lá estava cada vez mais difícil.

Nunca gostei de ir visitá-lo porque a humilhação na hora da revista é muito grande. As mulheres tem de tirar toda a roupa, se agachar para que as agentes olhem a gente. Um rigor, né? Mas ninguém sabe como entraram as armas que ajudaram no massacre. Isso é um mistério. O pai dele nunca foi visitá-lo e não era toda vez que eu ia também. Nas visitas, quando estava transitando, os outros presos do pavilhão ao lado faziam assim para eles, olhe (sinal com a mão de corte no pescoço). Para eles não se implicarem, foi fechada uma porta e o diretor mandou abrir outra para o outro lado, para eles não ficarem se comunicando muito. Ficava insossegada quando ia lá. Eles sempre faziam esse sinal, ficavam ameaçando.

Antes de ser preso, Kayro começou a mudar algumas amizades. Uma delas, a do Pequeno, foi a que o levou para a cadeia. Sempre via essa cara dentro de casa e já tinha dito que não o queria por perto. Com ele, meu filho abandonou tudo, largou a igreja. Certo dia, encontrei o Pequeno na porta da minha casa e disse que não queria ele lá, daí meu filho reagiu. “A senhora quer que eu saia da sua casa”. “Meu filho, não estou te expulsando. Só se afaste desse rapaz”. Ele puxou a bolsa, abriu a gaveta dele, levou três cuecas, três bermudas e três blusas. Com oito dias sem vê-lo, estava na igreja, orando, Deus me revelou que os dois estavam sendo presos. Fiquei inquieta e fui no Face da ex-esposa dele. Perguntei: ‘Tu sabe dizer do Pequeno?’. ‘Princesa, estava só esperando amanhecer para te dizer’. Foram presos, levados numa viatura e acabaram no pronto-socorro. A polícia diz que foi overdose, mas os médicos falaram que Kayro tomou tanto choque que desmaiou e, como tinha asma, teve de receber atendimento.

Diz que o Pequeno tinha pedido um carro de São Paulo e quando chegou aqui ele fez os documentos. Na cadeia, o Pequeno convenceu o Kayro: não podia ir para o Fechado (regime fechado no Compaj) porque senão morreria lá (Além desse crime, Kayro havia sido condenado em 2012 após roubar um celular). Kayro assumiu o crime e estava há quatro meses lá quando tudo aconteceu. Meu filho pagou o pato por ele. E o outro está solto até hoje. Kayro pegou 4,5 anos. O advogado disse que tinha como ele sair rápido, mas aí tinha de ter dinheiro. Para isso, tem que ter dinheiro. Ainda corri atrás para tirar ele. Todo dia pedia para sair mais cedo do meu trabalho para tentar tirá-lo de lá. O defensor disse que dia 5 de janeiro ele estaria solto. Não deu tempo.

No dia 31, quando cheguei, ele não estava na cela, comecei a chorar. Daqui a pouco lá vem eles, já tinham cavado um buraco, faltava só quebrar o muro, para eles saírem. Eles iam fugir antes da rapaziada chegar para matá-los. Faltava só quebrar o muro. Tinha um índio lá dentro que dizia: “Tia, a senhora não fique assim, não, que nós vamos lá para fora e vai ser mil grau”. Ainda sobreviveram três que pularam nesse buraco.

A minha nora foi visitá-lo no dia e o pessoal da Kombi falou que estava tendo rebelião no Fechado. Ela só pensou nele e me ligou falando. Não posso dizer que não tinha a ver com isso de facção porque eu não andava com ele. Ele estava naquela área pelo Pequeno, porque, quando caiu, o Pequeno era conhecido matador, e souberam que eles estavam juntos. Não dava para ficar na ala com o restante dos presos.

Nas visitas de Natal, tinha comprado para ele umas roupas, roupas de marca que ele gostava. Duas bermudas, duas blusas, duas cuecas. Infelizmente, foi isso que me levou a confirmar a sua morte porque, na medida em que eles iam matando, eles iam enchendo o WhatsApp de fotos e vídeos. Numa dessas imagens, tinha um corpo sem cabeça e sem braços com uma cueca vermelha e uma bermuda verde. Eram essas que tinha comprado para ele e dado no Natal. Tudo que eles faziam com o meu filho, lá, eles mandavam no Whatsapp. ‘Se foderam tudinho’, eles diziam.

Não quero que eles sejam condenados, não. Quero que todos morram. Eles vão morrer. Da forma que eles fizeram, eles vão morrer pior. Confio naquele lá de cima. A Justiça de Deus tarda, mas não falha. Não quero que sejam condenados, não, porque eles estão vivos e o meu filho está morto. Nunca mais vou vê-lo. Muita gente ali morreu de forma inocente.

No último ano-novo que passamos juntos, ele bebeu muito, fumou, usou drogas, sei lá. Fui lá brigar com ele porque ele estava descontrolado. Ele só disse que ia aproveitar: “ano que vem não estou vivo mesmo”. Para mim, acabou essa época. Só tenho um filho aqui comigo. O outro está preso, mas não vou visitá-lo.  A mulher de um preso contou estão só esperando esse reveillon para lombrar de novo. Não tem nenhum lugar seguro. Vou ficar sozinha aqui. Quero nem saber. Todo dia 1º fico muito transtornada. Lembro da data, beijo a foto dele, abraço. Vai passando o ano e a gente não esquece, não. Ninguém tem direito de tirar a vida de ninguém."

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