Tomada de território

Cientes de que foram eleitos em sua maioria pelo empenho de Lula em derrubar a cidadela oposicionista no Senado e de que não dispõem mais da escora da popularidade do ex-presidente para assegurar vitórias políticas ao governo, os 15 senadores do PT decidiram se organizar e atuar com visão estratégica.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2011 | 00h00

Partindo do seguinte princípio: a maioria governista de 65 senadores não é segura e, mesmo contando com 52 aliados considerados fiéis, a base parlamentar é conjuntural.

Na hora do aperto, quem segura o rojão é a bancada do PT. Afinal, são os petistas que estão comprometidos com o projeto de poder de longo prazo sem levar em conta circunstâncias partidárias ou regionais.

Ou seja, a mudança de comportamento do partido no Senado é um fato e não uma mera impressão provocada pela reação absolutamente coordenada dos petistas ao discurso em que o senador Aécio Neves buscou se firmar como líder da oposição.

Afinados e, sobretudo, afiados nos apartes ao tucano, os petistas chegaram a ser criticados por alguns aliados que consideraram a ofensiva equivocada, pois com isso estariam enaltecendo a figura do adversário.

A avaliação deles foi diferente: responderam à altura acusações feitas ao partido e ao governo Lula. Depois da sessão, na bancada a brincadeira era a de que o PT havia conseguido "eleger" um líder da oposição bastante conveniente, alguém com quem o governo sempre manteve as melhores relações.

Se Aécio vai manter o tom ou se mais adiante vai recrudescer, os petistas não sabem. A senadora Gleisi Hoffmann faz, no entanto, um alerta: "Se ele acha que liderar o processo é aparecer no plenário de três em três meses para fazer um discurso, vai ter problemas".

O êxito da atuação no Senado, pondera, é a convivência, a articulação, o desenrolar cotidiano.

Foi mais ou menos essa receita que o PT aplicou à própria bancada: pacificou divergências, patrocinou o atendimento de reivindicações, neutralizou posições muito independentes e chegou à conclusão de que seria necessário construir um sistema de sustentação do governo que prescindisse da ação de Lula na linha de frente.

A norma de agora é ganhar no voto e também na política. Respeitando a oposição? Sem dúvida, mas também sem ceder de graça os espaços. Quer dizer, quem quiser vencer que lute por isso.

Os senadores do PT acreditam que passaram no primeiro teste importante, que foi a votação do salário mínimo: marcaram presença na discussão e, segundo eles, conseguiram fazer o debate, ganhar no voto sem brigar com a opinião pública.

Inevitável. Se vier a prevalecer mesmo o entendimento defendido hoje por alguns parlamentares de que a reforma política terá de ser corroborada pela sociedade, por meio de plebiscito ou referendo, não haverá como os políticos fugirem da discussão sobre o voto obrigatório.

Partidos de todos os matizes abominam a hipótese do voto facultativo. Mas, quando consultada a respeito, a população se divide.

Na última pesquisa divulgada sobre o tema, pelo Datafolha, 48% dos brasileiros foram favoráveis ao voto obrigatório e 48% se posicionaram a favor do facultativo.

Consulta popular que se preze não pode passar ao largo da questão que é praticamente uma preliminar quando se discute (a sério) mudanças no sistema.

Mal igual. Um dos mais importantes entre os diversos males que assolaram o PFL/DEM foi deixar que o partido vivesse a reboque da dicotomia entre as lideranças de Antonio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen.

O PSDB talvez não tenha se dado conta, mas vai pelo mesmo caminho ao permitir que o partido funcione na dinâmica de dois polos entre as figuras de Aécio Neves e José Serra.

Pior: tucanos interditam o debate quando interpretam que o que se diga a respeito de um é necessariamente em ataque ou defesa do outro.

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