Tombado salão de jogos de luxo em SP

Casarão em condomínio é exemplar de construção rural do século 20

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

12 Agosto 2009 | 00h00

Em reunião realizada ontem, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp) decidiu tombar o salão de jogos de um condomínio de alto padrão da zona norte da capital. Explica-se: em 2008, a Ospe Construtora, após acordo com a Prefeitura de São Paulo e com a Subprefeitura de Vila Maria/ Vila Guilherme e autorização do próprio Conpresp, transformou a "Casa do Imperador" - casarão do início do século 20, última construção a comprovar a origem rural da Vila Maria - em área recreativa para os moradores da torre residencial de 20 andares, construída no terreno ao lado. Trata-se de caso único na cidade de São Paulo, segundo o Conpresp. O contraste é evidente: de um lado, uma torre de cerca de 70 metros, com apartamentos de 250 m² avaliados em R$ 1,2 milhão, com piscina aquecida, quadra de esportes, playground. A menos de 10 metros de distância está o casarão - cujo nome vem de uma lenda de que d. Pedro I teria passado noites no local -, usado hoje, principalmente aos fins de semana, por condôminos interessados no forno a lenha, nas mesas de sinuca e de pebolim, na churrasqueira. "É a área mais especial do condomínio", afirma a síndica, Fátima Veronezi. O tombamento do casarão, cujo processo corria desde 2001, foi decidido após avaliação de que se trata do "único elemento físico a unir o atual bairro de Vila Maria à propriedade rural que lhe deu origem, o antigo Sítio da Bela Vista". Segundo pesquisa do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), a "Casa do Imperador", porém, na verdade era residência de empregados da sede da fazenda, construída em 1856 e destruída na década de 1970. A construção do condomínio começou em 2002 e foi finalizada em janeiro de 2008. Para chegar ao acordo para a obra, a Ospe diz ter sensibilizado órgãos públicos - Prefeitura, subprefeitura e Conpresp - com seu projeto de restauro. "Mostramos que a casa estava caindo aos pedaços e que o interior estava descaracterizado", disse o diretor da construtora, José Teixeira. "Foi um favor para o bairro e para a cidade. Não fosse por nós, a casa estaria no chão." Para autorizar a construção da torre - onde vivem hoje cerca de 50 pessoas -, os conselheiros da época exigiram restauro da área externa, mas não fizeram restrição em relação ao interior. "Só disseram para manter uma bola de concreto, que servia para amarrar os escravos, dentro do casarão", conta a síndica. A bola, cuja destinação não foi confirmada, hoje fica embaixo de um dos bancos rústicos que decoram o salão. Entre moradores vizinhos, houve reação à obra. "O uso dessa casa histórica é absurdo. Deveria ser algo aberto", diz a artista plástica Carmen Thiago, que faz campanha contra o empreendimento. "Não iniciamos uma ação porque, quando vimos, já havia tapumes por todo lado e não conseguimos fazer as fotos que nos disseram que precisaríamos para abrir processo. Agora, nem conseguimos mais ver o prédio da rua." Na decisão de ontem, além de tombar o prédio, o Conpresp "sugeriu" ao condomínio que substitua os muros de 4 metros de altura por "gradis vazados". ESTHER E BRETAGNE Na reunião de ontem, também foram aprovados os restauros das fachadas dos edifícios Bretagne, em Higienópolis, e Esther, na frente da Praça da República. No Bretagne, as pastilhas coloridas serão trocadas pela primeira vez desde a inauguração, em 1958. No caso do Esther, a reforma será emergencial, para evitar que a fachada comece a ruir.

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