Torres polêmicas no Morumbi marcam volta da Cia. City

Moradores reclamam do impacto da obra no trânsito e de derrubada de mata atlântica

Diego Zanchetta e Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

27 de agosto de 2008 | 00h00

Em qualquer discussão de urbanismo que se preze em São Paulo, o nome da Companhia City sempre serve para exemplificar o desenvolvimento de bairros arborizados e aprazíveis, estritamente residenciais, com ruas generosas que respeitam os melhores padrões de arquitetura, como o Jardim América, o Pacaembu, o Alto da Lapa e o Alto de Pinheiros. Pois bem, o tal exemplo pode agora ganhar outro significado - no mínimo, mais polêmico. Até 2012, quando vai completar 100 anos, a Cia. City espera entregar um megaempreendimento no Morumbi, na zona sul, o primeiro vertical da sua história e o primeiro desse porte desde 1961.Serão sete torres gigantescas no entorno de trecho de mata atlântica com 12 mil árvores, em plena área tombada pelo patrimônio histórico estadual, com muito luxo e arquitetura modernosa. A chiadeira já começou. Dezenas de moradores do bairro, já escolado em trânsito e problemas estruturais, temem que o verde seja devastado e, principalmente, que os 365 novos apartamentos estrangulem ainda mais os complicados gargalos da Avenida Giovanni Gronchi.Os planos da Cia. City e de seus novos sócios colombianos vão de vento em pompa, apesar da polêmica. Nos últimos dois fins de semana, corretores passaram a ligar para possíveis compradores, antes mesmo de a obra ser aprovada na Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Os diretores da companhia já planejam também um outro condomínio, em uma área de 2 milhões de metros quadrados em Pirituba, na zona oeste da capital."Esses corretores que andaram anunciando os apartamentos no Morumbi não são ligados à Cia. City, são especuladores, pessoas com quem não temos contato. Nosso empreendimento ainda aguarda a aprovação", admite o presidente da Cia. City, José Bicudo, de 58 anos. "Não haverá desmatamento, pelo contrário. Vamos fazer o manejo de pelo menos 800 árvores em estado de decomposição e fazer um replantio que vai aumentar em 115% a diversidade de espécies. A meta é aumentar a densidade arbórea de uma espécie a cada 6,25 metros quadrados para uma espécie a cada 3,56 m². Será um condomínio vertical com o padrão de excelência que a companhia sempre primou para seus empreendimentos, com muito verde em volta." O megaempreendimento vai ficar em um terreno de 96 mil m², boa parte tomada por orquídeas, bromélias, ipês e outras espécies da mata atlântica, na altura do número 4.000 da Avenida Giovanni Gronchi. A área é ocupada atualmente pelo Colégio Nossa Senhora do Morumbi, criado pelas cônegas agostinianas na década de 1970. Sem conseguir reagir às dificuldades financeiras - o número de alunos caiu de 1 mil para 300 nos últimos anos -, a congregação colocou o terreno à venda em abril de 2004. Cerca de um ano depois, a área foi comprada pela Cia. City. O projeto prevê apartamentos de R$ 600 mil a R$ 1,5 milhão. O colégio das freiras deve permanecer na área, mas com instalações menores, para servir quase que exclusivamente ao próprio empreendimento. PRESSÃOPor causa da pressão dos moradores, a Cia. City desistiu de seu projeto inicial de construir lojas no condomínio abertas ao público. "O trânsito da Giovanni Gronchi não suporta mais de 1 mil novos moradores em um único endereço. Somos contra o empreendimento de qualquer forma. Já temos poucas áreas verdes, não podemos perder a maior que sobrou", diz Rosangela Gonçalves, de 46 anos, moradora do condomínio Portal do Morumbi, onde a maior parte dos mais de 5 mil moradores são contrários às novas torres no entorno da mata do Colégio Nossa Senhora do Morumbi. Outros moradores e entidades de bairro, contudo, passaram a apoiar o projeto após uma audiência pública promovida pelo governo municipal no dia 17 de abril, com a presença do secretário do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge. Mesmo que com razões dúbias. "Precisamos acreditar que as pessoas estão mais sérias. Quem serão os maiores beneficiados com o empreendimento são as comunidades como a de Paraisópolis. De onde você acha que vão sair as empregadas para esses apartamentos?", indaga Rosa Richter, presidente do Conselho de Segurança (Conseg) do Morumbi.A Secretaria Municipal do Verde informou que o projeto prevê a impermeabilização de 68% do terreno. Pelo empreendimento em análise, a Prefeitura diz ainda que a mata nativa "será recuperada, enriquecida e preservada, aberta ao público". A pasta informa que no momento analisa o plano de manejo apresentado pela Cia. City - a densidade arbórea do espaço tombado não poderá ser reduzida, diz o governo.

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