Tortura e negligência mataram Dutra Pinto, diz Comissão

Tortura e negligência são as causas da morte de Fernando Dutra Pinto, seqüestrador da filha do apresentador Silvio Santos, segundo relatório divulgado hoje pela Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos (CTV). O documento atesta, ainda, que o Estado fracassou na tarefa de manter a integridade do criminoso, garantida pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB). Do ponto de vista técnico, o laudo elaborado pelo patologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Saldiva é similar ao que foi apresentado pelo Instituto Médico-Legal (IML), em fevereiro. "Nos permitimos fazer algumas interpretações e achamos que a morte dele não foi natural", afirmou Saldiva. O fator desencadeante teria sido uma grande lesão nas costas, que infeccionou. "Uma baita pancada", resumiu. Foi por meio do ferimento que o seqüestrador foi infectado com a bactéria Staphilococcus, que levou à pneumonia, quando estava preso no Centro de Detenção Provisória (CDP). Segundo Saldiva, se o criminoso não tivesse a grande ferida do lado esquerdo das costas, provavelmente, a doença não se desenvolveria. O médico acredita que Dutra Pinto ficou doente por pelo menos 12 dias antes de morrer. O período sem atendimento médico entre 12 de dezembro - quando ele teria apanhado de funcionários do presídio e passado por exame - e 31, quando foi novamente medicado, foi decisivo para agravar a infecção, que provocou a morte. Durante esses dias, Dutra Pinto teve febre alta, dor nas costas e falta de ar. A autópsia mostrou o nível de infecção no corpo do seqüestrador: um litro de secreção no pulmão esquerdo e meio litro no direito. "Por isso ele foi morrendo aos poucos", disse o patologista. Saldiva preferiu não determinar que tipo de pancada Dutra Pinto teria sofrido. Para o presidente da Comissão Teotônio Vilela, João Batista Breda, a lesão deve ter ocorrido quando o seqüestrador apanhou de um funcionário na cadeia. Pedidos Breda fez recomendações burocráticas no relatório que foi entregue hoje ao governador e aos secretários Saulo de Castro Abreu Filho, da Segurança, e Nagashi Furukawa, da Administração Penitenciária. Também foram encaminhadas cópias ao Ministério Público e à Ouvidoria da Polícia. De acordo com Breda, é fundamental que o Estado tome conta de Esdras Dutra Pinto, irmão de Fernando. "É um alerta. Ele e o outro menino (Marcelo Batista dos Santos) sabem o que ocorreu no flat (em Alphaville, onde o seqüestrador trocou tiros com policiais e fugiu)." Breda ressaltou que "ambos tiveram coragem de falar sobre as agressões sofridas por Dutra Pinto" e podem ajudar. No relatório, a comissão pede ainda melhoria no atendimento de presos e o afastamento dos agentes que agrediram o seqüestrador.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.