Trabalhador vai de bicicleta e a pé para fugir do valor de tarifas

Segundo pesquisa, pequenas distâncias também motivam a troca dos meios motorizados

Renato Machado e Eduardo Reina, O Estadao de S.Paulo

04 de abril de 2009 | 00h00

A maior parte dos deslocamentos na Região Metropolitana de São Paulo continua sendo feita a pé e praticamente dobrou o número de percursos feitos com bicicleta. De acordo com números da pesquisa "Origem e Destino", apresentada ontem em caderno especial pelo Estado, 12,6 milhões de viagens diárias são feitas andando e passou de 162 mil para 305 mil as feitas com bicicleta . Se por um lado esses dados podem sugerir um alívio para os congestionamentos, eles também expõem a fragilidade econômica das classes mais pobres.A OD mostra que dobrou em dez anos o número de pessoas que alegam fazer as viagens a pé pois acham alto o preço das passagens de coletivo. Foram 639 mil pessoas que deram essa resposta na mais recente edição da pesquisa, 5% do total. Em 1997, eram 297 mil, 2,7%.A escolha de outros tipos de transporte não motorizado na Grande São Paulo é característica da fuga dos altos custos das passagens ou dificuldade de compra e manutenção de um automóvel. Para o professor Marcio Silveira, especialista em geografia dos transportes, da Unesp de Ourinhos, como o custo de vida na Região Metropolitana é muito elevado, uma parcela da população é empurrada para esses meios de locomoção. "Como o transporte coletivo não está adequado a todas as classes sociais, com custos elevados, há uma corrida para o transporte individual", explica Silveira.O número é mais expressivo quando se trata de viagens feitas com bicicletas. A pesquisa aponta que 22% das pessoas que utilizam essa forma desistiram do transporte coletivo porque acham as passagens caras. Cerca de 215 mil dessas viagens são feitas para se dirigir ao trabalho, 70% do total feito com bicicletas."É uma forma de economizar um pouco", diz o auxiliar de serviços gerais Adriano Novaes, de 27 anos. Ele pedala todos os dias aproximadamente 40 minutos para ir de sua casa na Cohab Antártica, na zona norte, para a empresa farmacêutica onde trabalha, na Freguesia do Ó. Com um salário mensal de R$ 700, ele afirma que gastaria pelo menos R$ 100 para ir de ônibus, além de precisar acordar mais cedo. "Não tem ônibus na minha região, então tenho de caminhar até o corredor principal e de lá pegar um", diz ele, que costuma acordar às 4 horas. Embora ache saudável pedalar, ele revela que quer juntar dinheiro para comprar uma moto.Novaes conta que o trajeto é tranquilo em grande parte da Avenida Inajar de Souza, porque há uma ciclovia. O trecho mais perigoso é entre sua casa e o terminal Vila Nova Cachoeirinha, quando tem de dividir espaço com os ônibus.Além do alto custo das passagens, outros motivos são citados para não se usar o transporte coletivo. Dentre as pessoas que fazem viagens a pé, aumentou aproximadamente 10% o número daqueles que fizeram essa opção por causa da demora para o ônibus passar no ponto. Essa razão foi citada por 103 mil pessoas. Outras 12 mil vão a pé porque acham os coletivos cheios.SAÚDEDentre os que realizam as viagens a pé ou de bicicleta, a maioria justifica a escolha por causa da pequena distância a ser percorrida. Cerca de 88% dos adeptos das caminhadas e 56% dos ciclistas deram essa resposta. Um outro aspecto não citado na edição de 1997 da OD agora aparece com certa relevância. A escolha pela caminhada foi justificada por 256 mil pessoas (2%) que utilizam essa forma em seus percursos por ser uma oportunidade de realizar atividade física. Dentre os que utilizam as bicicletas, 7% o fazem com esse fim. É o caso do bancário Edson Freitas, de 38 anos, que começou a andar de bicicleta há cinco anos, pois seus médico receitou atividades físicas para combater a pressão alta. No início das tarde, eles sai de sua casa na Vila Nova Cachoeirinha e pedala uma hora até a sede do Corinthians, no Tatuapé, para fazer academia. Horas depois, ele volta para casa, toma um banho e sai para o serviço, na Vila Mariana. Dessa vez, de ônibus.

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