Traficante é preso ao tentar assistir ao filme "Cidade de Deus"

Paulo Sérgio Savino Magno, o Pequeno, de 28 anos, acusado de ser o gerente do tráfico de drogas na favela Cidade Alta, na zona norte do Rio, foi preso na noite de segunda-feira ao chegar a um shopping para assistir à pré-estréia do filme "Cidade de Deus", que retrata a realidade dos traficantes na comunidade que dá nome à fita. A polícia quer saber se ele foi convidado pelos diretores, Fernando Meirelles e Kátia Lund, que poderão responder por crime de favorecimento pessoal.Em entrevista veiculada pelo site Parabólica no dia 6 de agosto, Fernando Meirelles teria dito que havia pedido permissão ao chefe do tráfico na Cidade Alta, Gilberto Martins, o Mineiro, para filmar no local. Segundo Meirelles, o filme não teria sido rodado na própria Cidade de Deus porque a situação na favela era "instável. "O cineasta teria dito ainda que chegou a negociar diretamente com o bandido, que estava preso em Bangu, por um telefone celular.New YorkBaseado nessas declarações, os policiais da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) resolveram ir à pré-estréia, no New York City Center, na Barra da Tijuca, zona oeste do rio, na tentativa de prender criminosos. Pequeno, que estava acompanhado da mulher, foi preso no saguão do cinema, pouco antes do início da exibição. O chefe de Polícia Civil, Zaqueu Teixeira, acredita que a produção do filme tenha dado convite a Pequeno. "Eles serão intimados a dar esclarecimentos. O que pode caracterizar o crime é o fato de eles saberem que o bandido estaria lá e não comunicarem à polícia", disse Teixeira. A pena prevista para o crime de favorecimento pessoal é de um a seis meses de prisão.ForagidoPequeno era foragido da penitenciária Plácido de Sá Carvalho e já foi condenado a sete anos de detenção. Contra ele havia três mandados de prisão, por tráfico de drogas. Ele seria acusado também de matar policiais. O bandido foi encaminhado para a carceragem da Polinter, no centro.Co-diretora de "Cidade de Deus", Kátia Lund disse que não deu convite ao bandido. "Nunca o vi. Não convidei e duvido que o Fernando tenha convidado", afirmou. A cineasta contou que algumas pessoas entraram nas salas de exibição (três das 18 do shopping) sem convite, já que sobraram lugares. Ela disse ainda que a equipe de filmagem não pediu autorização diretamente aos traficantes da Cidade Alta. "Quando filmamos numa favela, fazemos contato com a associação de moradores e eles falam com os traficantes", afirmou. A Lumière, distribuidora de "Cidade de Deus", informou que foram distribuídos 900 convites para a pré-estréia. Os ingressos foram enviados para a casa dos convidados, de acordo com a empresa, mas o nome das pessoas não era confirmado na entrada do cinema.PrecedenteKátia Lund já havia sido intimada pela DRE, em abril de 2000, para depor sobre suposto envolvimento com o traficante Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, personagem do documentário "Notícias de uma guerra particular", dirigido pelo cineasta João Moreira Salles e co-dirigido por ela. Salles disse que havia pago R$ 1,2 mil a VP, então chefe do tráfico da favela Dona Marta, na zona sul do Rio, durante seis meses, para que ele escrevesse um livro.Na época, Kátia confirmou que conhecera Marcinho VP e que fora visitá-lo na prisão, mas declarou não saber que Salles lhe dava mesada. Em "Notícias de uma guerra particular", bandidos falam sobre o tráfico de drogas e armas e relatam suas experiências. Marcinho VP está preso em Bangu.

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