Traficantes ocupam casa no ABC e família é mantida refém

Três traficantes obrigaram uma família do Jardim das Orquídeas, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, a ceder a casa onde morava e transformaram a residência em um ponto de embalagem de droga. A família de quatro pessoas (casal e duas filhas) foi mantida como refém por oito dias e obrigada a trabalhar para os traficantes na embalagem de papelotes de cocaína. Graças a uma denúncia anônima, na noite de ontem a Polícia Militar cercou a casa e libertou as vítimas. No momento do cerco, às 20 horas, estavam na casa Edval Ferreira Lima, o "Ceará", e Daiane da Silva, de 21 anos, acusados pela polícia de serem os traficantes. Um terceiro comparsa, não identificado, não estava na casa. Daiane foi presa e indiciada por tráfico de drogas e porte ilegal de arma. Lima conseguiu fugir, pelos fundos da casa, ao cerco de 16 soldados do Tático Móvel do 6º Batalhão da PM de São Bernardo do Campo.Vizinhos da casa contaram que, na fuga, Lima usou uma das meninas da casa como escudo. A polícia pediu que, por segurança, os integrantes da família não sejam identificados. Na casa, as meninas tinham 1 anos e 9 anos, respectivamente. O pai delas, J.M.O., é motorista de ônibus.Segundo informou a polícia, o motorista de ônibus, sob ameaça de morte, foi obrigado a manter sua rotina de trabalho para não despertar suspeita sobre a casa. Ele ia trabalhar e tinha hora marcada para voltar. Se não obedecesse, a família morreria. Para uma vizinha, que viu o traficante na casa durante o dia, a mulher do motorista foi obrigada a dizer que o bandido era seu primo.A menina de 9 anos também foi liberada pelos traficantes para ir à escola. Mas só nos primeiros dias. Na segunda e terça-feira, os traficantes a impediram de ir à escola, com medo que ela denunciasse o drama da família. A manutenção da rotina evitou que os vizinhos desconfiassem de qualquer anormalidade. Eles dizem que não sabiam que estavam tão próximos de uma família que virou refém na própria casa. Assustados, sem se identificar, faziam comentários que expressavam o tamanho da surpresa. "Eu quase morri (de susto)."É triste, a que ponto chegamos."Na casa foram encontrados um revólver calibre 38 e 168 papelotes de cocaína, somando 72 gramas. Vizinhos disseram que Lima, ao fugir levou duas outras armas. A família não foi encontrada ontem para dar entrevista. O delegado de plantão no 3ºDP, Marcelo Henrique Ferreira, informou que as vítimas estariam, no Programa de Proteção às Testemunhas do governo do Estado.CATIVEIRO- Não há informações precisas sobre como os traficantes entraram na casa. Segundo a polícia, Lima comanda o tráfico na favela da Vila Ferreira, em São Bernardo do Campo. A família havia morado nessa favela, até alugar a casa no Jardim das Orquídeas, por R$ 300,00, para onde se mudou no dia 1º de maio. Foi na favela que Daiane conheceu as vítimas. Na semana passada, Daiane foi à casa do Jardim das Orquídeas, ocasião em que a família foi tomada como refém.A casa transformada em cativeiro fica no andar superior de um sobrado. No terreno há dois sobrados, onde moram quatro famílias. Com 120 metros quadrados, dois quartos, sala, cozinha, banheiro e lavanderia, a casa tem um terraço do qual é possível se ter uma visão parcial do bairro.Alimentos e bebidas encontrados na cozinha mostram que os traficantes cuidavam bem do abastecimento. Havia na geladeira vários quilos de carne e 26 garrafas de cerveja. Outras 20 garrafas de cervejas estavam abertas, em duas caixas. Os vizinhos contaram que a família também era obrigada a cozinhas aos traficantes.

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