Traficantes se rendem e libertam reféns no RJ

Sete pessoas da mesma família - entre elas um bebê de cinco meses - permaneceram sete horas como reféns de traficantes nesta manhã, no centro de Niterói, Grande Rio. Os criminosos faziam parte de um ?bonde? (comboio de traficantes) que havia tentado ocupar o Morro do Estado, localizado atrás da casa da família. Eles invadiram a residência quando a polícia, que interveio no conflito, encurralou o grupo de oito homens. Os reféns foram libertados depois de cumpridas as exigências dos traficantes: um advogado foi chamado e um dos presos deu uma entrevista coletiva. Os criminosos foram presos."Foi uma coisa pavorosa", resumiu Ana Flávia de Jesus Pinto, de 19 anos, mãe do bebê. "Minha filha ficou calma, graças a Deus". Ana Flávia contou que os traficantes chegaram às 4 horas. Eles disseram que arrombariam a porta se os moradores não abrissem. Todos os reféns - o dono da casa, o jornalista Jorge Luiz Rodrigues, de 45 anos, a mulher dele, Ana Maria de Jesus, de 41, os três filhos, entre eles Ana Flávia, o bebê e um sobrinho de 15 anos - foram levados para o quarto do casal.Ana Flávia contou que os criminosos estavam calmos. Eles teriam dito que haviam participado de uma invasão frustrada ao morro e que a família nada sofreria. "Eles não colocaram arma na cabeça de ninguém. Deixaram todas elas em cima da mesa. Eles assistiram à tevê, comeram biscoito e beberam água", contou Ana Flávia.De acordo com o estudante Denilson Fortes, de 15 anos, primo de Ana Flávia, os traficantes chegaram a libertar um dos reféns para que fosse ao trabalho. O rapaz, que não quis se identificar, voltou à casa para acompanhar o desfecho do episódio.Às 6h30, uma equipe do Batalhão de Operações Especiais chegou para negociar a rendição dos criminosos. Um advogado foi chamado por exigência dos traficantes. Às 10h40, um deles, Ricardo Alves de Lima Silva, de 22 anos, deixou a casa para falar com a imprensa. "Eu sou cria do morro. Mas fizeram um esculacho: mataram o meu irmão sem ter nada a ver. A gente veio correr atrás do prejuízo", contou. Ele disse ainda que três dos homens que estavam dentro da casa eram "trabalhadores com carteira assinada". "Quando a polícia chegou eles correram junto", disse. Silva estava morando no Morro do Adeus, zona norte do Rio, de onde saiu parte dos traficantes para a invasão.A ocupação ao Morro do Estado começou às 23 horas de domingo. Um "bonde" formado por traficantes do Rio, São Gonçalo e Niterói se reuniu no Morro da Boa Vista, em Niterói. O grupo de 50 homens, em 12 carros, era comandado por Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, diretamente do presídio de segurança máxima em Bangu 1, segundo a polícia. "Eles falavam o tempo todo com o comando deles por celular. E o comando deles é o Uê", disse o titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes de Niterói, Anestor Magalhães.O tráfico no Morro do Estado é controlado pelo Terceiro Comando. Em dezembro, o gerente Léo Louro foi preso no município de Araruama, Região dos Lagos. Hoje, Jair do Nascimento Batista, o Clone, de 23 anos, comandou a invasão. Ele é ligado a uma facção do Terceiro Comando que se uniu ao Amigo dos Amigos (ADA). "É uma cisão do Terceiro Comando", disse Magalhães.Entre os oito presos na invasão da casa, um deles é um adolescente de 17 anos. Outro, Paulo Henrique Ferreira de Araújo, de 29 anos, cumpriu o serviço militar obrigatório. Com os traficantes, a polícia apreendeu sete fuzis (um AK-47, dois AR-15, dois G-3, dois FAL), duas pistolas, uma granada, um rádio transmissor, dois celulares. Pelo menos três homens morreram na tentativa de ocupação ao Morro do Estado.O secretário de Segurança Pública, Roberto Aguiar, comparou a ação dos bandidos com o seqüestro do ônibus 174, ocorrida em junho de 2000, ressaltando que o caso de hoje foi mais complicado que o anterior, uma vez que os bandidos tinham armas pesadas. Ele elogiou o desempenho dos policiais que atuaram ontem e disse que "esse negócio de ficar matando inocente não vai existir mais", referindo-se à morte da professora Geisa Firmo Gonçalves, no desfecho do seqüestro do coletivo. "Aqui no Rio não haverá mais nenhum tipo de excesso. Vamos agir com inteligência. Não adianta mandar uma série de soldados no desespero", afirmou Aguiar.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.