Tráfico emprega 20 mil ´aviões´ no Brasil, diz a ONU

O abuso e o tráfico de drogas são responsáveis por grande parte dos 30 mil homicídios praticados por ano no País. E para cada assassinato, outras 20 a 40 pessoas são feridas e hospitalizadas. O narcotráfico também emprega mais de 20 mil entregadores, os chamados ?aviõezinhos?, a maioria jovens na faixa de 10 a 16 anos, que recebem salários de US$ 300 a US$ 500, muito mais do que poderiam obter num emprego formal. Outros milhares esperam por uma oportunidade para entrar nesse ?negócio? altamente lucrativo.Nos últimos dez anos, o consumo de anfetaminas entre estudantes aumentou 150%. O de maconha, 325%, e o de cocaína, 700%. A rentabilidade do comércio da cocaína é superior a qualquer atividade econômica, lícita ou ilícita. Por isso, a concorrência entre as quadrilhas de traficantes é acirrada e cada vez mais violenta. Antes, o Brasil era usado como rota do tráfico para países desenvolvidos.Hoje, o mercado interno está ativo e em expansão. Estas observações estão em 61 páginas do Perfil de País, documento elaborado pelo escritório da Organização das Nações Unidas (ONU) contra Drogas e Crimes para o Brasil e Cone Sul. Concluído em agosto, foi encaminhado ao Itamaraty e divulgado em dezembro, após manifestação do governo de que nada há a contestar.O italiano Giovanni Quaglia, um dos responsáveis pela análise, disse que, nas eleições de 2002, a questão da segurança pública foi considerada a preocupação número 1 da população. Segundo ele, a carência de serviços públicos de educação, saúde, moradia, polícia e Justiça em áreas excluídas, principalmente das maiores cidades, facilita o controle dessas regiões por organizações criminosas. ?Embora tenha alcançado importantes avanços, o Brasil continua enfrentando sérias restrições nos esforços para integrar mais de 50 milhões de pessoas, que sobrevivem com menos de US$ 2 por dia.?O relatório informa que o grande número de jovens sem emprego nas áreas urbanas cria ?incerteza e violência, estimulando o recrutamento? pelo crime organizado. O texto traz uma análise dos milhões de moradores de favelas, ?pessoas trabalhadoras e honestas?, que não têm condições de morar em outro lugar por causa dos baixos salários. Entre estas pessoas, a análise da ONU inclui cerca de 200 mil policiais civis e militares que, em função da baixa renda, moram em áreas dominadas por traficantes e gangues. O poder de fogo do crime também foi abordado: os bandidos estão mais bem armados do que as forças policiais.RotasOutro ponto avaliado é o das rotas de cocaína e maconha e o mercado ilegal de produtos químicos usados no refino da droga. Os autores do documento alertam: ?O governo brasileiro precisará de muito esforço para melhorar os atuais indicadores de violência e responder às preocupações do eleitorado em relação à segurança.? Para isso, dizem, o Brasil precisa adotar ações em níveis federal, estadual e municipal, envolvendo organizações da sociedade civil, para obter resultados a curto, médio e longo prazos. O Brasil, segundo a ONU, é considerado um país de consumo médio de drogas.Uma pesquisa do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) revela que, na última década, alunos do ensino fundamental e médio passaram a usar drogas seis ou mais vezes por mês. Chamado Violência nas Escolas, o trabalho indica que, nas 340 escolas pesquisadas, 55% dos alunos sabiam onde comprar armas e drogas. No Rio, uma pesquisa feita na Vara da Infância e da Juventude, também anexada ao relatório da ONU, apontou 3.318 delitos praticados por crianças e adolescentes abaixo dos 18 anos em 1997. Em 2000, o número subiu para 5.898. Dos detidos nesse ano, 59,9% estavam sendo levados pela polícia primeira vez; 19,11% já tinham uma passagem; 9,33%, duas; e 10%, mais de três vezes. O envolvimento com as drogas alcançou 35,5% dos jovens.Enquanto o uso da cocaína, maconha e drogas sintéticas sobe no País, as injetáveis caíram de 24,5% para 13% entre 1994 e 2002, segundo boletim da Coordenação Nacional de DST e Aids. No mesmo período, houve queda dos casos de Aids de 14,8 por 100 mil habitantes, em 1996, para 12,3, em 2002. A redução é atribuída a uma intervenção bem planejada, iniciada em 1990 pelo governo brasileiro, em parceria com a ONU, o Banco Mundial e a Unesco.Criminosos internacionais têm ligações com grupos no Brasil para o tráfico de cocaína, de armas e lavagem de dinheiro. As drogas estão sendo cada vez mais usadas como moeda na compra de armas. O estudo aponta que os grupos envolvidos com o tráfico acham o sistema financeiro brasileiro atraente para a lavagem de dinheiro. Segundo o relatório, o Brasil adotou oito recomendações da Força Tarefa de Ações Financeiras sobre a Lavagem de Dinheiro (FATF) e o sistema bancário é o principal fornecedor de informações para controle de fluxo de dinheiro.PrisõesA facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que domina prisões em São Paulo, é citada no documento, que aponta o ano de 2002 como o mais problemático. ?As rebeliões revelam o alto grau de corrupção existente nesses estabelecimentos?, afirma a ONU. A corrupção inclui circulação de armas, drogas, dinheiro e celulares nas prisões. Os telefones permitem que criminosos mantenham o controle sobre as atividades mesmo aprisionados.As rebeliões revelaram a fragilidade do sistema carcerário e o poder dos criminosos ligados ao tráfico dentro das prisões. O dinheiro usado nos presídios para pagamento de suborno e do comércio ilegal de armas é, segundo a ONU, ?oriundo? principalmente do tráfico. O governo federal lançou o Plano Nacional de Segurança Pública (PNSP), com orçamento de US$ 383 milhões para combater o crime, modernizar presídios e assistir vítimas e testemunhas. Mas, segundo a ONU, é preciso fazer mais.

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