Jarbas Oliveira/EFE
Jarbas Oliveira/EFE

'Tragédia anunciada', diz filho de vítima de desabamento em Fortaleza

O prédio que desabou na manhã da última terça-feira, 15, tinha problemas estruturais; até o momento, sete vítimas foram resgatadas com vida

Heloísa Vasconcelos e Israel Gomes, especiais para o Estado

17 de outubro de 2019 | 00h16
Atualizado 17 de outubro de 2019 | 11h15

FORTALEZA - No dia que o Edifício Andrea desabou, a empregada doméstica Cleide Maria da Cruz, de 60 anos, deu um beijo em seu filho antes de sair de casa. Assim que chegou ao serviço, viu funcionários trabalhando em uma das colunas de sustentação do prédio e até comentou com o porteiro como aquilo era perigoso. Ela entrou na casa da patroa por volta das 10 horas e foi para a cozinha preparar um café. Mal terminara de tomar a primeira xícara quando tudo ruiu.

“Era uma tragédia anunciada”, resume o motorista de aplicativo Leandro Carvalho, de 39 anos, o filho de Cleide, uma das sete vítimas resgatadas com vida do desabamento que ocorreu na manhã de terça-feira, 15, em Fortaleza. O prédio de sete andares, onde moravam 13 famílias, ficava localizado na rua Tibúrcio Cavalcante, no Dionísio Torres, bairro nobre da capital cearense. Até o momento, o Corpo de Bombeiros confirma quatro mortes. Sete pessoas seguem desaparecidas - entre elas, a patroa de Cleide.

Carvalho conta como sua família e a dos moradores do Edifício Andrea eram próximas: a mãe trabalhava para eles há 21 anos. Em casa, ligou a televisão e soube que havia acontecido um desabamento na região. Não teve dúvidas de qual prédio era. “Se a gente tivesse na varanda, de vez em quando caia um pedaço de revestimento”, relata.

Ele diz que sua mãe sempre voltava para casa com histórias que denunciavam a degradação do prédio, como janelas tortas ou portas que paravam de fechar por causa do desnível do chão. O motorista diz que situação era assim há pelo menos 14 anos. “Minha mãe tá bem, mas e quem tá lá? Porque as pessoas se recusaram a fazer uma reforma, se recusaram a gastar um dinheiro.”

Cleide Maria teve uma fratura exposta na perna e passou por cirurgia ainda na terça. Está na enfermaria do Instituto José Frota (IJF), com quadro estável. Além dela, Gilson Moreira, de 53 anos, também está internado no hospital. Ele fraturou as duas pernas e passou por duas cirurgias até o momento.

Das outras vítimas resgatadas com vida, duas foram liberadas: Fernando Marques, de 20 anos, e João Ícaro Coelho, de 35. Antônia Peixoto, de 72 anos, encontra-se em estado grave no hospital Otoclínica, da rede particular, mesmo local em que está Davi Sampaio, de 22 anos, em situação estável. Francisco Rodrigues Alves, de 59 anos, aguardava transferência para o IJF na tarde desta quarta-feira, 16.

Atendimento no local

Próximo ao local do desabamento, um edifício cedeu espaço para atendimento aos familiares das vítimas, além de auxílio aos voluntários e bombeiros. Conforme a professora de enfermagem da Universidade de Fortaleza (Unifor), Isabela Bonfim, há psicólogos, psiquiatras e enfermeiros no local.

“A espera por notícias está mexendo muito com eles. Como hoje foi a tarde inteira sem resgate nenhum, alguns tiveram crises, síndrome do pânico e desmaios. Está muito complicado”, disse a docente, que participa da equipe de auxílio voluntariamente. Os familiares recebem informações apenas dos bombeiros e de integrantes da Defesa Civil. É a partir deste contato que é realizado a identificação das vítimas.

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