WERTHER SANTANA/AE
Moradores ajudam bombeiros que trabalham no local onde um bombeiro morreu, na cidade de Guarujá WERTHER SANTANA/AE

Tragédias das chuvas criam marca duradoura de destruição no Sudeste

Número de mortes na região chegou a 164 nesta semana; especialistas apontam necessidade de ampliar áreas verde e investir em moradias populares

José Maria Tomazela e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Para muitos dos que sobreviveram aos temporais que caíram no Sudeste neste verão, a chuva ainda não acabou. Mesmo após a estiagem, as histórias se repetem: o desafio agora é superar a perda de parentes, da casa ou do ganha-pão, levados nas enchentes ou nos deslizamentos. 

Os números ilustram o tamanho da tragédia. Neste verão foram pelo menos 164 mortes nos quatro Estados - São Paulo, Rio, Minas e Espírito Santo. É o dobro do que foi registrado no ano anterior (82), segundo dados das defesas civis estaduais compilados pela reportagem.  O total de desabrigados passa de 87 mil. O Estado ouviu histórias de vítimas dos quatro Estados, afetados de diferentes maneiras. 

Nesta semana, a Baixada Santista entrou na lista. Até este domingo, 8, os bombeiros já haviam encontrados 42 corpos em Guarujá, Santos e São Vicente. Outros 36 continuam desaparecidos, conforme a Defesa Civil Estadual. A maioria das vítimas foi soterrada em deslizamentos em áreas de risco. O número atual de desabrigados é de 329 em Guarujá e 185 em Santos. O Estado de São Paulo tem mapeadas 665 áreas de risco para desastres naturais. Esses locais estão distribuídos em 313 dos 645 municípios paulistas, de acordo com a Defesa Civil. 

Segundo especialistas, a tendência é de que as chuvas extremas e os desastres relacionados aos temporais fiquem cada vez mais comuns nos próximos anos, diante das mudanças climáticas e de problemas urbanísticos das grandes cidades, como pouca permeabilidade do solo e sistemas de drenagem ineficientes.  “A prioridade zero é haver mudança de mentalidade, tanto por parte do poder público e agentes privados quanto da sociedade em geral”, diz Valter Caldana, professor de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. 

Em alguns casos, dirigentes têm responsabilizado a população O prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), por exemplo, disse que  "tem certas coisas que o cidadão tem de fazer por si mesmo" para evitar mortes e acidentes em dias de forte chuva. Ao visitar Realengo, na zona oeste carioca, uma das regiões mais afetadas pelos temporais no início do mês, Crivella disse que "a culpa é de grande parte da população, que joga lixo nos rios frequentemente". Ele disse também que os cidadãos escolhem morar em áreas de risco "porque gastam menos tubos para colocar cocô e xixi e ficar livre daquilo". No dia seguinte, ele afirmou ter se expressado mal e pediu desculpas. 

Para Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), é preciso apostar em moradia popular. “A população pobre hoje é empurrada para áreas de risco, onde vai encontrar um metro quadrado em condições de ser comprado ou alugado barato”, diz.  “Tem que haver programas habitacionais que ofereçam, à população mais pobre, moradias dignas e seguras.”

O geólogo ainda critica gestões municipais que têm investido em sistemas de alarme como principalmente ação para lidar com enchentes e deslizamentos. “É uma medida de caráter emergencial, enquanto outras mais estruturais deveriam estar sendo levadas a efeito. É uma coisa cruel com a população tocar uma buzina às 3 horas da madrugada no alto do morro, para idosos crianças, gestantes, descerem ladeira abaixo para não morrer." Segundo Caldana, investir em saneamento e mais áreas verdes é uma estratégia importante. “A arborização não é só enfeite. Muda completamente o clima, altera a velocidade das águas (por ser permeável) e baixa a temperatura”, afirma. "Temos que perceber o seguinte: não é uma ação isolada que vai resolver. Os problemas somos nós, não são as chuvas.”

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Minas Gerais: Sem a mãe e os irmãos, pedreiro deixa uma vida para trás

Mais de um mês após chuva matar sua família, Gilberto não conseguiu voltar a local da tragédia

Leonardo Augusto, Especial para o Estado

09 de março de 2020 | 05h00

BELO HORIZONTE - Mais de quarenta dias depois de um deslizamento de terra provocado pelas chuvas destruir a sua casa, Gilberto do Carmo, de 41 anos, em momento algum teve forças para retornar ao local onde vivia. Nem para ver se sobraram os documentos, objetos pessoais ou alguma lembrança.

“Falta coragem para subir lá”, justifica. No deslizamento, o pedreiro, que não estava em casa na hora em que a terra deslizou, perdeu a mãe Marlene, de 58 anos, e três irmãos – Edmar, de 25, Luiz Augusto, de 19, e Edvânia, de 17. Carmo hoje mora na casa de um amigo. “É uma dor que não vai passar”, conta.

A casa em que morreu a família do pedreiro fica na região do Barreiro, zona oeste de Belo Horizonte, cidade fortemente atingida pelas chuvas no início do ano. Na noite de 24 de janeiro, além da família de Carmo, três pessoas morreram no mesmo bairro, também vítimas do deslizamento de terra. O Estado foi o recordista em mortes por chuva neste verão, com 72 vítimas.

Segundo Carmo, a prefeitura fez algumas reuniões com moradores do bairro, que perderam parentes e casas, mas, até o momento, não foi liberado benefício. “Falaram que veriam o que poderia ser feito, mas, até agora, nada”, reclama ele. Em janeiro, a capital mineira teve o mês com maior volume de chuvas desde 1910, o dobro da média para janeiro. 

BH tem hoje 305 pessoas em pousadas definidas pela gestão municipal. Segundo a prefeitura, a hospedagem é “uma medida provisória e excepcional para salvar as vidas” de quem deixou locais de risco por causa das chuvas.  Sobre benefícios a vítimas da chuvas, a Secretaria de Assistência Social da cidade afirmou ter pedido à União antecipação do pagamento do Bolsa Família. A Prefeitura disse ainda que desde, a semana passada, técnicos fazem vistoria em casas atingidas pelas chuvas para verificar a possibilidade de retorno dos moradores. Foram indicadas 150 famílias para o programa Bolsa Moradia, que paga o aluguel residencial a vítimas de chuvas.

Segundo o tenente-coronel Flávio Godinho, coordenador-adjunto da Defesa Civil de Minas, as pessoas que permanecem sem teto após as chuvas no Estado estão nas casas de parentes, amigos, ou no chamado aluguel social. Neste caso, uma casa é escolhida pelo desabrigado com custo máximo especificado pelo poder público e o valor é pago pelo Estado via prefeitura. Godinho disse ainda que, nos casos de acolhimento por parentes e amigos, há entrega de cestas básicas pelo poder público.

Estado e prefeitura prometem investimentos

Ele diz que o Estado vinha se preparando para as chuvas, e que o número de mortos registrado pode ter ocorrido, ao menos em parte, porque as pessoas não teriam respeitado alertas emitidos. A Defesa Civil usa redes sociais e envia mensagens diretamente a telefones cadastrados sobre volume de chuva esperado para as próximas horas. "Pode ter ocorrido um descrédito inicial por parte da população."

Outro problema, segundo ele, são as ocupações de encostas. Em relação a obras previstas pelo Estado, afirmou que o Estado liberou R$ 22,7 milhões para contenção de enchentes no Córrego do Ferrugem, em Contagem, afluente do Ribeirão Arrudas, que corta a capital mineira, e vem aplicando R$ 17 milhões por mês para reconstrução de estradas.

Em relação a obras que começaram a ser realizadas ao longo do período de chuvas, a prefeitura diz ter concluído 160 de um total de 221 intervenções. Estão entre os serviços, o restabelecimento de pavimentação e recuperação de vias, contenções, recuperação de praças e canteiros, desobstrução de redes de drenagem, limpeza urbana, implantação de sarjeta, desobstrução e limpeza de bocas de lobo e de bacias. Sobre obras para evitar  novasenchentes, a prefeitura afirma que cinco intervenções têm previsão para serem concluídas antes do início do próximo período de chuvas, um investimento de R$ 33,7 milhões em recuperação de canais de córregos, drenagem e esgotamento sanitário.

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São Paulo: enchente fez autônomo trocar casa com piscina por quitinete e perder ganha-pão

Ariovaldo de Oliveira morava em uma casa com piscina, mas depois da enchente tem vivido de favor

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 05h00

SOROCABA - Dono de uma casa ampla, com piscina e churrasqueira, em um condomínio de Itu, no interior de São Paulo, o transportador autônomo Ariovaldo de Oliveira Júnior, de 47 anos, agora vive de favor. Desabrigado pela enchente do Rio Tietê após a chuva em 12 de fevereiro, ele, a mulher Renata, de 33 anos, e a filha, de 10, estão alojados na quitinete cedida do vizinho.

A inundação derrubou o muro de 15 metros e invadiu os cômodos. “Perdemos camas, colchões, armários de cozinha, todos os eletrodomésticos, computadores. A mesa de madeira maciça foi parar na piscina”, diz ela. “Era a casa de nossos sonhos, que construímos com sacrifício”, acrescenta o marido.

Ele perdeu ainda um carro e, pior, o pequeno caminhão-baú que usa para fazer fretes. “Quando a enxurrada chegou, levei o caminhão ao ponto alto da rua, onde a enchente nunca chega. Não só chegou, como cobriu o motor. Fiquei 20 dias sem trabalhar, esperando o conserto.” R$ 30 mil de prejuízo, sem contar os dias parados. É toda a renda da família em seis mese

Agricultor morreu ao tentar resgatar amigo

A família do agricultor Adriano Marques de Melo, de 35 anos, que morreu quando ajudava a resgatar outras pessoas em meio a uma enchente, em Araçariguama, também no interior paulista, ainda lida com o vazio deixado pela sua morte. “Ele era muito prestativo, ajudava todo mundo, por isso nós da família e os amigos estamos sentindo muita falta”, diz o advogado Alex do Nascimento, de 38 anos, sobrinho da vítima. Adriano desapareceu no dia 11, uma terça-feira, quando as águas do Rio Tietê transbordaram e alagaram o bairro.

“A casa dele também ficou alagada, a água chegou a quase dois metros e ele perdeu tudo. Mesmo assim, se arriscou na enchente para salvar pessoas que estavam sendo levadas pela correnteza”, disse. Segundo Alex, o tio já havia saído da água, e estava na parte mais alta do bairro com as pessoas que ajudou a resgatar, quando deu pela falta de um amigo. “O outro rapaz havia ficado para trás e ele decidiu entrar na enchente de novo para tentar achá-lo. Não voltou mais.”

Alex conta que os bombeiros foram acionados, mas não conseguiram chegar ao bairro porque a estrada havia sido obstruída pela queda de árvores. O corpo de Adriano só foi localizado na manhã seguinte e sepultado no Cemitério Jardim da Paz, em Araçariguama. Os amigos se referem a ele como um herói, por ter salvado várias pessoas antes de morrer. 

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Espírito Santo: 'O que eu não faço é desistir', diz dona de loja destruída duas vezes pelo temporal

A loja de Carina Caprioli foi atingida duas vezes pela enchente. Ela teve um prejuízo de até R$ 40 mil

Leonardo Augusto, Especial para o Estado

09 de março de 2020 | 05h00

Em menos de dois meses, a loja de Carina Caprioli no centro de Alfredo Chaves, cidade capixaba a 87 quilômetros de Vitória, foi atingida duas vezes pela enchente. Na primeira, em 17 de janeiro, o prejuízo foi entre R$ 30 e R$ 40 mil com as roupas do estoque. “Tentei ir à loja para salvar algo, mas não consegui. Foram duas caminhonetes de roupas sujas pela lama que tirei da loja”, conta ela, de 34 anos, que também perdeu a mobília.Mesmo após o barque, a loja voltou a funcionar após uma semana. "Fui a São Paulo, comprei algumas mercadorias e voltei a funcionar uma semana depois, só com araras móveis.

Aí veio o segundo temporal. “Recebi SMS da Defesa Civil à noite e corri para salvar as roupas. Desta vez consegui, porque já não tinha tanta coisa.” Com a segunda enchente, ela decidiu trabalhar em outro ponto, sem risco de alagamento. “O que não faço é desistir.”

Já o taxista Natanael Novatti, de 29 anos, também foi vítima das chuvas de janeiro no Espírito Santo. Casado e pai de um filho, ficou 20 dias sem poder trabalhar porque as ruas da cidade onde mora, Iconha, a 90 quilômetros ao sul de Vitória, foram destruídas. "O que sustentou a minha família foi a reserva (financeira) que tinha", conta. O município, com cerca de 13 mil habitantes, foi um dos mais atingidos no Espírito Santo pelas chuvas de janeiro.

Novatti conta que ainda hoje a situação em Iconha é complicada. "Muitas pontes ainda não foram reconstruídas." O taxista diz que o movimento melhorou, mas ainda não é perto do que registrava antes das chuvas. "Está tudo voltando muito devagar".

No último dia 29, o Governo capixaba informou ter destinado R$ 100 milhões para reforma e reconstrução de estradas e encostas em municípios afetados pelas chuvas. Outros R$ 10 milhões, ainda segundo o Executivo, foram para reforma e compra de equipamentos e móveis para escolas. Além disso, R$ 70 milhões foram destinados para obras de prevenção em áreas de risco.

 

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Rio de Janeiro: após invasão de lama, diarista teve casa reduzida pela metade

Com medo de novo temporal, diarista ficou a semana sem trabalhar. A esperança é conseguir salvar o pouco que restou

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 05h00

RIO - Vanicelia Maria de Oliveira, diarista de 51 anos, divide desde o dia 1º de março, a parte de cima da casa com a filha Érica, grávida de quase nove meses, e onze cães. É a única parte da residência simples ainda habitável, desde que a forte chuva da véspera invadiu o imóvel, levando lama e destruição.

Com medo de novo temporal, ela ficou a semana sem trabalhar. A esperança é conseguir salvar o pouco que restou. “Quando a água veio, arrastou tudo. A casa do vizinho caiu toda aqui dentro do meu quintal. Graças a Deus, eles não estavam e ninguém se machucou.”

Construções irregulares, casas próximas a encostas e a estrutura precária cobraram seu preço. Em Realengo, zona oeste do Rio, onde mora Vanicelia, o córrego transbordou e causou deslizamentos. “Não temos como limpar a casa, porque estamos sem água.”

A zona oeste da capital fluminense foi uma das regiões mais afetadas, mas cidades da Baixada Fluminense e da região metropolitana também foram fortemente atingidas. Em Itaguaí, muitas casas continuavam submersas ainda na quinta-feira. Moradores dizem ter medo da transmissão de doenças. Relatam que animais como cobras, ratos e aranhas são vistos por toda parte. A prefeitura decretou estado de calamidade pública. Também houve inundações em Seropédica e Mesquita, também na Baixada.

O governo do Estado dará auxílio financeiro para a compra de materiais de construção e eletrodomésticos da linha branca às famílias que tiveram prejuízos. Os valores são R$ 5 mil para as famílias desabrigadas e R$ 2 mil para as desalojadas. No Rio, desde 1º de março, a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos atendeu 2.130 famílias. Dessas, 474 ficaram desalojadas, e outras seis, desabrigadas.

A prefeitura do Rio ainda pode decretar situação de emergência ou mesmo estado de calamidade pública na cidade, o que permite às famílias que tiveram prejuízo com chuva sacar dinheiro do FGTS.

 

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