Márcio Fernandes/Estadão e Christian Hartmann/Reuters
Márcio Fernandes/Estadão e Christian Hartmann/Reuters

Tragédias em Mariana e Paris polarizam redes

De acordo com especialistas, o ambiente da internet provoca nos usuários a falsa sensação de anonimato e de pseudopolitização

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

17 Novembro 2015 | 11h46

SÃO PAULO - No mundo das redes sociais, as cidades de Mariana, em Minas Gerais, e Paris, capital da França, estiveram no topo das principais discussões deste fide semana. Muitos usuários usaram os próprios perfis para criticar a importância que alguns internautas deram aos atentados de Paris em comparação com o desastre ecológico em Minas Gerais.

No Twitter, um usuário disse: “Tô achando tão engraçado o #PrayForParis de vocês. #PrayForMariana não teve, né? Tá bacana, tá legal”. No Facebook, enquanto alguns mudavam a foto de perfil para a bandeira francesa, outros postavam mensagens com “indiretas” aos que demonstravam mais solidariedade com Paris do que com Mariana. Surgiram ainda os conciliadores, que criticavam os dois tipos de comportamento.

Para Marcos Américo, professor do programa de Pós-Graduação em Mídia e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é “fácil” e “pega bem” ser solidário nas redes sociais. “É muito fácil ser pseudopolitizado nas redes sociais. Basta dar um 'like', compartilhar, e ler uma piadinha na aba ao lado e está tudo certo. Dá a impressão de que você se importa. Parece simpático”, afirma Américo.

Segundo ele, embora demonstrem preocupação “fácil” publicamente, poucos são os que argumentam e assumem um posicionamento profundo. Além disso, diferentemente da vida real, é possível bloquear, ignorar e apagar comentários nas redes sociais.

“Se a discussão acontece na vida real, o enfrentamento é mais complexo. Na rede, existem figuras que se apoiam no anonimato. É muito fácil, no calor do momento, postar. Se arrepender, apaga”, disse Américo.

Ana Luiza Mano, psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática (NPPI) da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diz que a “falsa sensação de anonimato” das redes sociais passa aos usuários a ideia de que o conteúdo postado não trará consequências.

“As pessoas tendem a acreditar que a internet é uma ferramenta atrás da qual podem se esconder. Isso não significa que todo mundo é bandido, nada do tipo. O que significa, segundo John Suler (autor de O efeito da desinibição online, de 2004), é que o efeito da desinibição online produz um ambiente em que você se crê anônimo”, explicou Ana Luiza.

Segundo Celso Figueiredo, doutor em Comunicação e professor de Mídias Sociais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a guerra de relativização das tragédias entre os usuários é a polêmia da semana. “As redes sociais, em especial o Facebook, são espaços da polêmica. A cada semana tem uma polêmica nova. Na semana passada, era o 'nude' da (Gabriela) Pugliesi. Na semana que vem, terá outra”, afirmou o especialista.

Polarização. Figueiredo explica que, embora o tema seja novo, a polarização das redes sociais não é nova. O processo de debate acirrado nas redes sociais em torno de um tema específico nasceu nas manifestações de junho de 2013 e se fortaleceu nas eleições presidenciais em 2014.

“Essa questão da polarização que tomou conta do Facebook desde as eleições acabou se configurando com a polarização dos 'coxinhas' versus 'mandiocas'. Nesse caso, as pessoas que estão solidárias a Paris são os 'coxinhas', e os solidários a Mariana, os 'mandiocas'. Obviamente, isso é um exagero muito forte”, disse Figueiredo.

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